Talvez a melhor definição para Michael Mann seja da crítica Manohla Dargis, hoje no “New York Times”: o diretor de “Inimigos Públicos” é um cineasta especializado em fazer filmes de arte com orçamentos milionários.

Há um evidente problema, do ponto de vista da indústria, nesta formulação. Os chamados “filmes de arte” costumam atrair um público restrito, logo não podem custar caro, para evitar prejuízos. Filmes com orçamentos muito altos precisam, necessariamente, alcançar o grande público, sob o risco, caso não atinjam o seu objetivo, de abalar as estruturas do negócio. São, por isso, quase sempre, filmes mais “fáceis”, de estrutura linear, previsíveis na forma e no conteúdo, capazes de atrair públicos de todas os gostos e idades.

O talento de Mann, novamente comprovado em “Inimigos Públicos”, talvez explique o fato de Hollywood, cada vez mais conservadora, continuar apostando altas somas de dinheiro em um diretor original, ousado e ambicioso. E pouco disposto, como a maioria de seus colegas, a fazer qualquer negócio para agradar o público. 

“Inimigos Públicos” se passa em 1933, num país ainda às voltas com a Depressão. Com habilidade, no cruzamento da saga de um gângster com a história de um policial, Mann retrata um momento peculiar dos Estados Unidos, com inúmeras alusões a outros períodos, em especial a finada era Bush.

John Dillinger (1903-1934), vivido por Johnny Depp, é um assaltante que fez fortuna – e colecionou fama – com ações espetaculares contra bancos, uma instituição que contava com pouca simpatia do público na época. Melvin Purvis (Christian Bale) é o agente especial de um FBI, a polícia federal, ainda com poucos recursos, que cruza o país em busca de bandidos tornados celebridades por humilharem o Estado.

O longo filme (140 minutos) gravita em torno desses dois personagens, retratados com complexidade.  Mann filma os assaltos e as ações policiais com câmera digital, criando efeitos espetaculares, surpreendentes mesmo.

Os primeiros resultados de “Inimigos Públicos” mostram que, como de hábito, o filme de Mann não será um campeão nas bilheterias. Com orçamento de US$ 100 milhões, arrecadou em três semanas nos Estados Unidos cerca de US$ 80 milhões. Não é um fracasso, mas está longe de ser um “blockbuster”.

Mann tem se equilibrado nesta corda bamba há muito tempo. Em “Heat” (1995), dispôs de US$ 50 milhões para colocar Al Pacino e Robert De Niro em cena num filme de gângsters que, a duras penas, se pagou.

No ótimo “O Informante” (1999), causou um razoável prejuízo ao cutucar a indústria do tabaco, num filme denso e corajoso, protagonizado novamente por Al Pacino, e também com Russel Crowe (orçamento de US$ 68 milhões, menos da metade nas bilheterias americanas).

Em “Miami Vice” (2006), a divertida – e colorida – versão para cinema da série de tevê, Michael Mann mais uma vez inovou e causou prejuízos: com orçamento estimado em US$ 130 milhões, arrecadou pouco mais da metade disso nos Estados Unidos.

O seu único sucesso comercial, de fato, é o também muito bom “Colateral” (2004), no qual Tom Cruise interpreta um frio matador, sob o olhar do motorista de táxi vivido por Jamie Foxx. Com orçamento de US$ 65 milhões, o filme faturou o dobro apenas nos EUA, fora o imenso sucesso em todo o mundo.

Com tanta bobagem em cartaz, vale a pena encarar “Inimigos Públicos”. Ao menos para prestigiar um diretor diferenciado nesta indústria.

6 comentários to ““Inimigos Públicos”: filme de arte com grande orçamento”

  1. Daniela disse:

    Uma excelente matéria… Parabéns!
    Há muitos anos acompanho o trabalho de Michael Mann e, tirando a cinebiografia “Ali”, não acho nenhum dos filmes dirigidos por ele ruins… Apenas faltou dizer que, Mann é o responsável pela melhor adaptação de um livro de Thomas Harris para o cinema: o fantástico “Caçador de Assassinos” que, além de apresentar o Dr. Lecter ao mundo, de quebra, revelou William Petersen.

  2. sandra gandolfi disse:

    Assisti ao filme “Inimigos Públicos” ontem, 25/7, e adorei. É um grande filme, com uma fotografia maravilhosa e ótimas atuações. Vale a pena assisti-lo!

  3. Mariana Lima disse:

    um filme que reune Johnny Depp, Christian Bale e Michael Mann não precisa ser a última opção entre bobagens em cartaz pra ser ansiosamente aguardado e apreciado. Se você reclama da falta de opções em São Paulo (?????), imagina a gente aqui em Maceió, com apenas 4 salas de cinema disponíveis (no momento passando A Era do Gelo 3 e Harry Potter 6). QUANDO e SE Inimigos Públicos estrear por aqui, vou correndo ver. Lembro que Duplicidade, com Clive Owen, chegou aqui, ficou só uma semana em cartaz. Uma pena.

  4. Ademir disse:

    Concordo. Michael Mann é um grande esteta, é fantastica a sua habilidade com a camera digital, Miami Vice é uma obra-prima nesse sentido.

  5. Daniely disse:

    Tiro o chapéu par este filme é otimo!!!!!!!! Johnny Depp estava brilhante!!! Qum não assitiu está perdendo.

  6. Vanessa disse:

    Faltou um pouco de entusiasmo!
    Talvez por estar acostumada em ver Deep interpretando personagens excêntricos, foi diferente vê-lo no papel de um assaltante “herói” do povo. Longe de mim dizer que sua interpretação foi ruim, só não foi o bastante – para mim, que sou fã dele, mas não me decepcionou em nenhum momento. Foi perfeito neste filme e nos anteriores, foi mais que perfeito! Ele continua sendo a meu ver, o ator mais completo atualmente. Marion Cotillard também foi ótima, mas os dois não combinaram, formaram um casal meio indiferente, nada sentimental perto do romântico e envolvente Dillinger! Talvez tenha criado muitas expectativas, não foi exatamente o que eu esperava, mas foi ótimo o filme. Muito bem dirigido, fiel à época, etc…indico!

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