Em exibição em São Paulo, “Leonera”, do argentino Pablo Trapero, e “Vicky Cristina Barcelona”, do americano Woody Allen, foram apresentados em Cannes, este ano, com repercussões muito diferentes.
Ambientado quase integralmente dentro de uma prisão de segurança máxima, “Leonera” conta a história das transformações na vida de uma mulher, Julia Zarate (a ótima Martina Gusmán), ao longo de cinco anos. Acusada de assassinar o namorado, numa noite da qual ela não se lembra dos detalhes, Julia entra na prisão grávida de um menino, o qual será rejeitado ainda na barriga e nos primeiros meses de vida, mas que acabará se transformando no motivo principal da vida da mãe, que lutará por ele como uma leoa.
Mais impactante que a história, é o olhar delicado de Trapero na descrição da vida de Julia dentro de uma área do presídio ocupada apenas por mulheres grávidas ou com filhos. Matina Gusmán chegou a ser citada como forte candidata a um prêmio em Cannes por sua interpretação – prêmio ao final conquistado por Sandra Corveloni, a protagonista de “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas. Salles, por sinal, é co-produtor de “Leonera”, que conta com Rodrigo Santoro no elenco, em uma pequena participação.
Quatro personagens marcantes dão o ritmo a “Vicky Cristina Barcelona”, o quarto filme seguido (depois de “O Sonho de Cassandra”, “Scoop” e “Match Point”) de Woody Allen ambientado fora dos Estados Unidos. De um lado, duas amigas americanas, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), chegam à capital da Catalunha para dois meses de férias. Vão conhecer primeiro Juan Antonio (Javier Barden) e, na seqüência, sua ex-mulher, Maria Elena (Penolope Cruz), e ambos vão aplicar uma espécie de “choque cultural” nas americanas.
Vicky e Cristina vão extrair lições diferentes desta viagem iniciática, narrada em tom de fábula moral por Allen. Parece natural, neste percurso, que tanto o cenário (uma Barcelona de cartão postal) quanto as dúvidas e inquietações das personagens tenham cara de clichê, mas é desse repetição de lugares-comuns que o cineasta extrai a graça e a leveza de sua história – para não falar das três lindas intérpretes e do galã da história. Ainda que não tenha comovido a séria platéia de Cannes, “Vicky Cristina Barcelona” transborda bom humor e juventude – qualidades de tirar o chapéu para um cineasta de 72 anos e mais de 40 longas-metragens.



Ficar acordado e não cochilar.