André Fontenelle, Época, blog Mata-Mata, 21 de maio

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Os bastidores de um jornal esportivo

O recém-lançado História do Lance! – Projeto e prática do jornalismo esportivo, de Mauricio Stycer (editora Alameda), contém muito mais que o seu título modesto dá a entender. É, ao mesmo tempo, útil para quem quer conhecer a história de um jornal, a do jornalismo esportivo e até mesmo da imprensa no Brasil em geral.

Fruto da dissertação de mestrado do autor no curso de Sociologia da Universidade de São Paulo, o livro não tem nem um pingo do ranço acadêmico que prejudica quase todos os trabalhos universitários sobre futebol. Não surpreende, uma vez que Stycer é jornalista, com passagem pelo próprio Lance, em seu primeiro ano de vida, entre outros grandes veículos (Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ÉPOCA, CartaCapital). (Full disclosure: o autor deste post foi colega de Stycer no Lance entre 1997 e 1998).

Não é apenas pelo estilo sem firulas de Stycer que o livro é agradável. O que ele tem de sobra, e costuma faltar a obras que abordam o jornalismo brasileiro contemporâneo, é franqueza. O autor traça, sobretudo, um perfil sincero do criador do Lance, o empresário carioca Walter de Mattos Jr., ainda hoje dono do jornal.

Mattos Jr. foi entrevistado por Stycer, colaborou com informações (ainda que não tenha esclarecido alguns pontos obscuros, como o processo de obtenção do capital inicial para a montagem do jornal), e não interferiu em nenhum momento no conteúdo do livro. O resultado é uma “biografia não-autorizada” do Lance que retrata o jornal exatamente como ele foi e ainda é: uma aventura iniciada em 1997 (”Esse cara é um aventureiro”, disse-me, sobre Mattos, meu chefe anterior quando lhe comuniquei a intenção de mudar de emprego) que, contra todas as probabilidades, deu certo, resultando num jornal que, se ainda hoje é cheio de defeitos, preencheu um nicho na imprensa que era então mal ocupado pelos decadentes Gazeta Esportiva (que extinguiu sua edição impressa em 2001) e Jornal dos Sports (que sobrevive).

Tendo também trabalhado com Mattos Jr., conheci suas qualidades e seus defeitos, muitos deles retratados com precisão no livro. No evento de lançamento, em São Paulo, muito se comentou sobre um episódio do livro, relatado por mim a Stycer, em que testemunhei o dono do jornal alterando (para baixo) a nota do jornal para uma atuação ruim de Athirson, do Flamengo (Mattos Jr. é flamenguista doente). Esse incidente anedótico ilustra bem o conflito entre a modernidade apregoada pelo Lance, como paradigma de jornalismo esportivo moderno que sempre quis ser, e a persistência de arcaísmos como a influência pessoal do acionista em um detalhe banal do conteúdo editorial. É esse tipo de conflito, e os problemas que ele gera, que Stycer tão bem aborda em seu livro. Para estudantes de comunicação ou qualquer interessado no mundo do jornalismo esportivo, História do Lance! é, ao lado de Os Donos do Espetáculo – história da imprensa esportiva no Brasil, de André Ribeiro (editora Terceiro Nome, 2007) – leitura recomendada.

André Fontenelle

O texto também pode ser lido aqui. 

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