Antonio Fraga: “A solidão de um grande escritor”

Antonio Fraga: “A solidão de um grande escritor”

Acaba de ser publicada a biografia “Antônio Fraga, personagem de si mesmo”, de Maria Célia Barbosa Reis da Silva. Trata-se do primeiro esforço no sentido de compreender a trajetória desse escritor, autor de uma pequena obra-prima, a novela “Desabrigo”, publicada em 1945, mas que morreu na miséria e no esquecimento, em Queimados, então distrito de Nova Iguaçu, em 1993.

Escrevi um texto sobre o livro para o Último Segundo, mas gostaria de contar aqui um pouco do meu envolvimento pessoal com este assunto.

Ouvi falar de Fraga no segundo semestre de 1985. Estava no último ano da faculdade de jornalismo, na PUC, no Rio. Quem me contou a sua história foi o jornalista Enock Cavalcanti, que o conhecera em 1982. Enock tentava se eleger deputado estadual pelo PT em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, quando bateu na casa de Fraga. Por e-mail, Enock me enviou sua lembrança do impacto que a visita a Fraga lhe causou na ocasião:

Nas outras casas, a gente entregava um bilhete e ia saindo. Na casa do Fraga, fui surpreendido por aquela mistura de pobreza e livros. Eram livros amontoados por todos os lados. Ele, a mulher Teresa e três filhos amontoados, junto com um cachorro e ele recebendo a gente com aquela ironia dele: “ora, ora, os românticos chegaram em minha casa. Como é bom saber que ainda existe gente que acredita no ser humano, na possibilidade de se construir um mundo de harmonia.” O Fraga me pegou. 

Ao ouvir a história, imediatamente procurei o “Jornal do Brasil”. Dois meses antes, a convite de Joaquim Ferreira dos Santos, eu havia começado a escrever como colaborador do “Caderno B”. Zuenir Ventura, então editor do Caderno B, nunca tinha ouvido falar de Fraga, mas achou a história incrível e me incentivou a ir a Queimados, a 50 quilômetros do Rio, entrevistar o escritor.

O resultado do meu trabalho, “A solidão de um grande escritor”, foi publicado na capa do Caderno B, com chamada na primeira página do jornal, no dia 12 de novembro de 1985. No dia seguinte, na coluna Informe JB, Ancelmo Góis relatou que, ao ler a reportagem, o presidente da República, José Sarney, mandou Marcos Villaça, presidente da LBA (Legião Brasileira de Assistência), ajudar Fraga.

Aos 69 anos, Fraga conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada – assessor especial D, matrícula 695.501, informa Maria Célia em seu livro. Dois dias depois, Zuenir me pegou pelo braço e fomos a Queimados para um segundo encontro com Fraga. A entrevista, “A voz de um escritor maldito”, foi publicada na última página da edição de domingo do Caderno B, dia 17 de novembro de 1985.

A leitura do livro de Maria Célia mostra que, por alguns meses, Fraga usufruiu da boa repercussão da matéria. Logo, porém, voltou a cair no esquecimento. Não me esqueço que Joaquim, na primeira vez que voltei à redação do “Jornal do Brasil” depois da publicação da reportagem, me disse: “Agora, você tem que fazer outra igual”. Era, claro, uma provocação, um estímulo, e me marcou muito. Pode parecer bobo, mas para mim, então estudante, causou uma alegria sem tamanho ver que, às vezes, uma reportagem de jornal pode ajudar alguém.

PS. Guardo como troféu um exemplar da segunda edição de “Desabrigo”, de 1978, com um autógrafo generoso do Fraga: “Ao Mauricio, com a estima (estima mesmo!) do Antonio Fraga, Queimados, 7/11/1985”.

11 Replies to “Antonio Fraga: “A solidão de um grande escritor””

  1. aaaaa, os genios esquecidos do brasil…
    o que dizer da fantástica maura lopes cançado e o seu “o hospício é deus”?

  2. Olá. Segue o meu otimismo a todos. Adoro ler. A maioria dos meus livros são emprestados, ou consignado nas bibliotécas.
    Adorei a reportagem, parabéns.
    Não se deve esquecer dos escritores, pois, é através deles é que viajamos para muito longe. É isso ai pessoal.

  3. Paulo coelho em seu novo livro ” O vencedor está só” trata do tema só que diferentemente do caso do Antonio Fraga, ele fala das misérias de pessoas bem sucedidas. O próprio autor por diversas vezes deixa transparecer que é um ser solitário.
    Portanto o reconhecimento do público não é garantia de uma vida feliz e equilibrada.

  4. Não sei se isso é destino ou seja lá o que for, há pessoas que fazem sucesso por muito pouco e outras que vivem na miséria, no abandono e deveriam ser estrelas de primeira grandeza , isso acontece com pessoas de todas as categorias não só com os escritores…… Gostei muito de receber a sua mensagem. Obrigada e mande outras. Abraços.

  5. É importante haver quem traga à luz escritores e poetas lançados para a gaveta do esquecimento.
    Trazê-los à luz do dia, isto é, ao convívio com os amantes das letras é um bem prestado à comunidade intelectual do tempo das impressões rapidamente substituídas e mais rapidamente esquecidas. Parabéns a Maria Célia! Tive o enorme prazer de conhecer no Encontro de Africanistas, no Rio, em Novembro de 2007 e espero voltar a contactá-la no fim da leitura deste seu acordar de um solitário adormecido.

  6. Que bom saber de mais um gênio sendo resgatado neste mundo da imbecilidade globalizada.
    O querido e saudoso João Antonio me contava muitas histórias sobre o Antonio Fraga. Que era um gênio abandonado e esquecido em Queimados, na baixada fluminense.
    Lamentavelmente, ainda temos gênios esquecidos e a mídia só dá espaço aos medíocres e sem talento.

  7. Estou agradecida ao Google (xD) por ter encontrado esta reportagem. Meu professor tinha me contado a história de Fraga, e fiquei tão interessada que resolvi pesquisar, e o Google me trouxe aqui… Fraga merece ser admirado e divulgado.

  8. Ah sim, que tolice a minha, agradeço ao Mauricio Stycer também, por escrever tão bem sobre esse poeta genial!

  9. Conheci Fraga na Feira de Poesia Independente na Cinelândia, no período entre 1980 e 1983. Eu e meu amigo Zé Cordeiro, hoje vivendo na Argentina. Na verdade a Feira foi instalada para arrecadar fundos para ajudar Antonio Fraga, que estava muito doente e necessitando de ajuda. Durante 3 dias, em 1980, inúmeros poetas lançaram seus livros, recitaram poesias e foi um acontecimento emocionante. Entretanto, temos que registrar isso, todo o dinheiro arrecadado com a venda de livros para ajudar Antonio Fraga, foi gasto ali mesmo nas mesas de bar do Amarelinho em rodadas de chop … Mas isso não desmerece, pelo contrário, a grande figura que foi Antonio Fraga, infelizmente. Para ter espaço na mídia é necessário fazer média, isto é, participar de reuniões sociais, conhecer as socialites da vida, se aproximar dos colunistas sociais, enfim fazer tudo o que nenhum escritor autêntico gosta de fazer. O resto vocês podem imaginar.

  10. Gênio?
    Aonde?
    Quem?
    Quantos?

    Há muita diferença entre a literatura de Guimarães Rosa e a de Charles Bukowski. A opinião padrão dos intelectuais diria que Rosa foi um gênio enquanto Bukowski apenas um bom escritor.
    É de se perguntar se todos escritores mortos tiveram a pretensão de ser gênio? Creio eu que nem todos. Existem aqueles malditos que só querem se apegar a algo para não cair numa vida carente de sentido. Escrevem apenas para passar o tempo.
    Os escritores médiocres são tanto quanto os gênios. A grandeza de Shakepeare ou a de Boccaccio não apaga o fogo de um Dalton Trevisan. Se uns vão ser imortais e outros não, isso é questão de tempo. Mas não podemos nos esquecer que chegará um dia em que Mozart e Cervantes vão virar pó junto a toda humanidade.
    A grandeza de um gênio não está na sua obra, ou está? A grandeza de um gênio está no seu corpo, no jeito como vive, na sua loucura. Alguma frase diz que todos os grandes são modestos. Se fosse assim Mozart não seria grande, porque o filha da puta era um arrogante de voz cheia.
    E se um gênio Matasse duas crianças de 2 anos cada, será que vcs o leriam com os mesmos olhos? Até onde vai a nossa imparcialidade moral ao ler um livro?

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