Desenhando um gráfico sobre publicidade no Twitter

Desenhando um gráfico sobre publicidade no Twitter

Não sou expert em mídias sociais, muito pelo contrário, sou um outsider da velha mídia recém-chegado a este mundo, mas fui capaz de entender que um dos maiores atrativos do Twitter é a troca de sugestões de leituras.

Por conta disso, acabei descobrindo que havia alguma coisa estranha no meio de algumas recomendações que estava recebendo. Resolvi investigar e o resultado da apuração foi publicado na quarta-feira, 19 de agosto, no Último Segundo, com o título Publicidade velada no Twitter causa polêmica.

A matéria teve enorme repercussão no próprio Twitter, provocando muitos comentários, elogios, sugestões e críticas. Alguns dos personagens citados reagiram ofendidos, sugerindo que não fui correto na apuração do texto e na abordagem. Fiquei com a impressão que muita gente não entendeu direito o ponto central que abordei. Vou tentar ser mais didático aqui.

Acompanhe meu raciocínio:

1. Ao recomendar um link aos seus seguidores, você está querendo partilhar alguma leitura, imagem, desenho ou vídeo que, do seu ponto de vista, merece ser apreciado por outras pessoas.

2. As pessoas que apreciarem a sua indicação podem reenviá-la para as suas próprias listas de seguidores, alimentando um ciclo de envio e reenvio sem fim, que é um dos fenômenos mais interessantes do Twitter.

3. Quanto mais legal for a recomendação que você faz, maior a chance de produzir esse ciclo e, em consequência, de ganhar novos seguidores.

4. Quanto maior o número de seguidores que você tem, maior a influência que você exerce na rede. Não é, portanto, um trabalho sem recompensa. Você pode até fazer tudo isso desinteressadamente, mas algo você vai ganhar em troca. Os especialistas falam em “prestígio” e “relevância” no esforço de definir o que você ganha no Twitter. 

5. Visualize o gráfico: quanto mais gente vê as suas recomendações, maior a chance de ela ser difundida. É uma curva que aponta para o céu.

6. Trata-se, portanto, de uma relação que se estabelece com base na confiança, não importa o grau de notoriedade e fama de quem faz a recomendação.

7. O seu seguidor te segue porque gosta das recomendações que você faz e, mais que isso, sente-se bem podendo enviar para os seus próprios seguidores as dicas que você dá.

8. Vamos imaginar agora o seguinte exemplo fictício: você recomenda a seus seguidores que vejam um vídeo de uma briga entre dois anões. É uma “treta” divertidíssima. Você adora o vídeo e acha que seus seguidores merecem se divertir tanto quanto você.

9. Só que, além de ser divertido, você também indicou este vídeo porque viu nele uma boa oportunidade de divulgar a palavra que marca a campanha publicitária de um determinado biscoito. Não por coincidência, a fabricante deste biscoito está te pagando para fazer recomendações como essa no Twitter.

10. Imagine que, talvez, entre os seus seguidores e os seguidores dos seguidores que receberão essa indicação e a farão circular pela rede, haja alguém que não saiba que você está recebendo dinheiro para fazer isso.

11. Quando este alguém, desinformado, descobrir que a pessoa que lhe recomendeu a “treta” de anões estava ganhando dinheiro para fazer isso, o que ela pensará? Você acha exagero imaginar que este leitor desinformado se sinta enganado?

Como disse, sou um recém-chegado neste novo mundo. No velho mundo, de onde venho, isso é crime de lesa confiança. Passar a impressão de que a recomendação da “treta” de anões enquadra-se na mesma categoria que todas as outras indicações que você faz, nesse mundo, chama-se publicidade velada, tentativa de disfarçar proposta de consumo no meio de informação.

Alguns participantes da campanha, bem-intencionados, avisaram em seus blogs que estariam ganhando dinheiro para indicar links no Twitter. Outros argumentaram que a campanha é tão transparente que o nome de todos está no site do fabricante de biscoito. Não quero magoar ninguém aqui, mas isso é a mesma coisa que colocar na sala um aviso de que é proibido fumar em todo o apartamento e fumar escondido no quarto.

A questão central é que credibilidade se constrói com transparência. Não que a velha mídia esteja livre da publicidade velada. Muito pelo contrário. Há, é lógico, muitos comunicadores que ficaram famosos e ricos misturando informação com publicidade, fazendo anúncio disfarçado, até jogando dinheiro para o público. Mas, e aqui eu encerro este texto, popularidade não deve ser confundida com credibilidade. Quem quiser vender biscoito no Twitter, fingindo que está passando links legais para seus leitores, fique à vontade, mas não espere ser respeitado.

22 Replies to “Desenhando um gráfico sobre publicidade no Twitter”

  1. Você está certo Mauricio. Eu compartilho do seu ponto de vista e considero sua argumentação muito segura e correta.

    Mas além do tema proposto em si, eu vejo e não é de hoje que tanto a blogosfera quanto a twittosfera é reclamada por alguns, e sempre os mesmos. Algo como, “esse território é meu”, “cheguei primeiro”.

    Eu vi algumas das reclamações que você comenta no post, e achei que foram carteiraço. Acho válido que cada vez mais pessoas proponham assuntos para debate, sejam links com vídeos ou sugestões de leitura, sejam debate puro sobre comportamento dentro da própria midia.

    #prontofalei

  2. não sei porque o Jasper se sentiu ofendido.
    Naquele seu texto foi criticado a ‘campanha’ da Puma.
    Na campanha do Club Social, ao meu ver não foi velada, porque ao entrar no site é nitido que se trata de um campanha com tuiteiros e blogueiros.

  3. Stycer, voce levantou uma discussão que acontece no jornalismo faz muito tempo, mas que as pessoas não tem a minima noção de qual seria o impacto nas mídias sociais. Mais ou menos como acontecem com jornalistas esportivos que vendem produtos após uma noticia. E aí, como faz? Lógico que a propaganda nas mídias sociais ainda estão engatinhando, e algo recente e que muitos daqueles que estão ocupando espaço na sua matéria são desbravadores, ocupando um espaço que não existia. De todo modo, eu acho que entendi o contexto da matéria e ficou mais claro com o desenho. Abraços.

  4. Oi Mauricio,

    Leio você desde os tempos da Carta Capital. Acompanho seu twitter e conheço pessoalmente alguns envolvidos.

    Queria que você refletisse sobre um fato. Fizemos um search agora no collecta.com (real-time search) e vimos que a tag #inconfundivel tem 10 resultados em 2 segundos.

    Acho curioso que você tenha terminado seu texto dizendo que quem quisesse vender biscoito não seria “respeitado”. Ao mesmo tempo em que tantas pessoas estejam adotando essa tag.

    Se você olhar por esse prisma, a polêmica sobre publicidade velada teve duas serventias:

    1 – trazer audiência para esse blog
    2 – gerar mais impacto e alguma simpatia para a mensagem do biscoito anunciante

    Você não acha isso curioso?

  5. Se existe publicidade velada em um veículo jornalístico eu acho errado. Mas porque seria antiético um “cidadão comum” fazer isso? Quem dita as regras pra isso?

  6. @Rodrigo
    “Além do tema proposto em si, eu vejo e não é de hoje que tanto a blogosfera quanto a twittosfera é reclamada por alguns, e sempre os mesmos. Algo como, ‘esse território é meu’, ‘cheguei primeiro’.”

    Não por acaso, um dos blogueiros patrocinados pela marca de biscoitos, nos momentos seguintes ao surgimento da polêmica postou um link para o primeiro ranking de tuiteiros brasileiros, que contava com vários integrantes dessa turma.

    A mensagem? “Lembra como era legal aquela época? Nós, os iluminados, os pioneiros.”

  7. bom, eu podia estar vendendo biscoitos, podia estar sequestrando seguidores, mas não! peço aqui humildemente que sigam o meu singelo perfil @caimuitachuva e se divirtam com as twittadas não patrocionadas dessa pobre – literalmente – jornalista blogueira.

    ps: serio q tem gente que nao entendeu sua coluna? seria melhor ter feito um desenho no twitdraw entao…

  8. Concordo que enganar é errado.
    Mas, achar que avisar no blog não é suficiente, aí já acho exagero.
    O aviso é divulgado da mesma forma que as próprias propagandas, e não há garantias de quem chegará primeiro a cada ouvinte.
    Eu, por exemplo, fiquei sabendo (pelo próprio twitter) primeiro da existência desta campanha e ainda não vi nenhum twit referente a ela.

  9. Até ler a matéria, eu não tinha o menor conhecimento da campanha do Club Social. E, claro, não tinha obrigação de.

    Li a matéria e fui buscar a tag “#inconfundivel” nos históricos. O resultado são várias mensagens sem nexo, com esse apêndice mal costurado; quase subliminar, ou totalmente.

    Enfim, se o objetivo é ganhar uns trocados, que se ganhe com mais transparência: “eu também vou usar esse espaço para publicidade a partir de hoje, ok, seguidores? Quando for usada a tag-ganha-pão, não se assustem”.

    Ninguém tem obrigação de visitar site de anunciante, antes de ler qualquer post, para identificar que código está embutido na mensagem.

    Se isso não ficar claro, é publicidade velada sim. Não adianta espernear.

  10. Certíssimo, Stycer. A transparência é fundamental para relações de confiança. Na verdade, eu desconfio daqueles tuiteiros que se recusam a dizer que a dica foi paga pelo anunciante. Por que não dizer abertamente? Fica parecendo que está mesmo querendo camuflar a operação.

    Abraço e sigamos nesse debate porque na Internet tudo será novo ainda por muito tempo,

    Rodrigo Cerqueira
    @rod_cerqueira

  11. Concordo plenamente com você, Mauricio. Posso até citar o meu caso como exemplo. Eu recebi algumas mensagens no Twitter com a tal tag encomendada e não entendi o porquê de ela estar sendo empregada, simultaneamente, por vários dos ‘iluminados’ ou ‘pioneiros’ contratados pela empresa. Simplesmente, não está claro que se trata de uma campanha e isso já é motivo suficiente de preocupação, sim.

    Além disso, o fato de os nomes dos ‘iluminados’ estarem na página da empresa não é argumento. Afinal, nem todos que os seguem acessam espontanemante sites de fabricantes de biscoitos. Não faz sentido a justificativa. Parabéns por apurar, informar e ter a humildade de debater o assunto abertamente. Um grande abraço!

  12. Mas se filmes e novelas também tem esse tipo de prática, por que achar que isso não vá acontecer na internet?

  13. Mauricio:

    ‘Quando este alguém, desinformado, descobrir que a pessoa que lhe recomendeu a “treta” de anões estava ganhando dinheiro para fazer isso, o que ela pensará? Você acha exagero imaginar que este leitor desinformado se sinta enganado?’

    Acho.
    A grande maioria que clica em links são os novatos que não conhecem a função e muitas vezes nem enxergam o #

    O que não concordo é fazer algo do tipo “cata paraquedistas” no twitter com a # da publicidade. Ai sim é sacanagem.

  14. Não me sinto ofendido em receber um link patrocinado, mesmo que ele não venha com esta recomendação. Se o conteúdo for relevante…

    Sei lá. Todas as vezes que leio algo a respeito do assunto abordado pelo Maurício (algo comum ultimamente) penso que há uma certa inveja ou mágoa não revelada para com quem está conseguindo ganhar algum dinheiro com a web 2.0. Mas é só uma impressão.

    Confesso que o item de número 6 (seis) é uma tremenda roubada, balela. Retuita-se muita bobagem apenas pelo grau de “celebridade” da pessoa, ou seja, a notoriedade faz a diferença. As pessoas querem se aproximar de suas figuras célebres e, no mais, já que tal personalidade já tem “moral”, retuítá-la não faz mal. Dá até um certo status. Fico com a impressão (olha ela aí de novo), que não se replica algo legal de alguém não famoso exatamente por isso, para não dar moral para um desconhecido.

    Nas mídias sociais, principalmente e atualmente no Twitter, a questão da credibilidade só fica mesmo abalada em relação aos linques (posts) patrocinados, o que, às vezes, me faz deixar a impressão citada acima de lado, e aí começo a ter a convicção de que há mesmo uma certa inveja ou magoa enrustida por parte de quem ainda não ganha dinheiro na rede.

    PS. Gostei da sinceridade velada da primeira parte do último parágrafo.

    Abraçosssssssss

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