Duas semanas na Espanha ouvindo falar do Brasil

Duas semanas na Espanha ouvindo falar do Brasil

Férias no exterior servem não para descansar fisicamente, mas mentalmente: desconectar, ver outras realidades, pensar em assuntos diferentes aos do seu cotidiano. Pois escolhi o lugar errado para as minhas: a Espanha. Passei duas semanas (maravilhosas, diga-se) ouvindo falar do Brasil.

Para começar, Oscar Niemeyer. O arquiteto de 101 anos ganhou uma bela exposição em Madri, recém-inaugurada, e é tema de debates que acontecem esta semana na cidade, que celebra uma série de eventos dedicados à arquitetura.

É óbvio que quando se fala de futebol na Espanha não dá para deixar de falar do Brasil, mas o momento é especial, em função não apenas da chegada de Kaká ao Real Madrid, mas graças ao Sevilha, que a cada dia se firma como a terceira força da bola no país.

O time de Luis Fabiano e Renato deu show nestas últimas duas semanas, com direito a goleada (4 a 1) no Rangers, na Escócia, pela Liga dos Campeões, e vitória sobre o Real (2 a 1) em casa. Depois de seis rodadas, está em terceiro lugar no Espanhol, com o mesmo número de pontos que o Real (5 vitorias e uma derrota) e sua classificação para a próxima fase da Liga dos Campeões só não acontecerá por acidente.

Em entrevista de uma página ao “El Pais”, o principal jornal da Espanha, publicada neste domingo, Luis Fabiano abre uma ótima polêmica ao declarar: “Kaká é melhor do que Cristiano Ronaldo”. O camisa 9 da seleção brasileira, cuja cláusula de rescisão com o Sevilha é de 30 milhões de euros, espera trocar de time ao final da temporada, em 2010.

E, por fim, o mais importante: Jogos Olímpicos. Depois de rodar pela Andaluzia e Barcelona, cheguei a Madri na terça-feira, 29 de setembro. A cidade estava toda decorada com cartazes alusivos à campanha pelos Jogos de 2016, e só se falava deste assunto nos jornais, na televisão e nos bares.

A cidade fez uma campanha com forte apelo emotivo, a começar do título “Madrid, tengo una corazonada” – o que levou o “El Pais” a noticiar no sábado, após o anuncio do resultado, que o Rio partiu o coração de Madri.

Embora falassem muito do lobby de Obama por Chicago, os espanhóis sabiam que o principal rival da candidatura de Madri era o Rio de Janeiro. Por este motivo, o noticiário da semana enfatizou o fato de a cidade já ter prontos quase 80% da infra-estrutura para os Jogos de 2016, contrastando com os números pífios do Rio neste quesito.

Outro sinal evidente da preocupação com a candidatura do Rio estava estampado na capa do “El Pais” de sexta-feira, dia da eleição. Uma enorme foto mostrava o presidente Lula passando a mão no rosto do rei Juan Carlos, observados pelo prefeito de Madri e pelo ex-jogador Pelé. Além da quebra de protocolo, a foto, tirada na véspera, parecia conter a seguinte mensagem, passada por Lula: gostamos muito de vocês (espanhóis), mas vamos levar essa.

Os espanhóis prepararam uma grande festa na sexta-feira, na Praça do Oriente, um dos cartões postais de Madri, tendo ao fundo o imponente Palácio Real, antiga residência dos reis da Espanha. A festa começou à uma da tarde e foi até às 18h50, quando o presidente do Comitê Olímpico Internacional anunciou o resultado final.

Da praça, ainda, enviei um pequeno texto ao iG Esporte, falando do silêncio de velório que tomou conta do lugar, só quebrado pela alegria de uns 20 brasileiros, com camisas do São Paulo, do Grêmio e da seleção, que desfraldaram bandeiras e camisas e, desafinados, começaram a cantar “Cidade Maravilhosa” e o hino do Brasil no local.

Com os vários espanhóis que conversei, incluindo Antonio Garrido, um dos principais radialistas do país, percebi que a frustração com o resultado não desaguou em raiva pelo fato de o vitorioso ter sido o Rio de Janeiro.

Os jornais no sábado confirmaram esta sensação, ao enfatizarem que a América do Sul nunca sediou Jogos Olímpicos – um dos temas centrais do discurso do presidente Lula ao COI – e que seria muito difícil um mesmo continente – a Europa – sediar os Jogos duas vezes seguidas (2012 será em Londres).

Com exceção das reclamações do presidente do Comitê Olímpico Espanhol, que achou estranha a migração quase total dos votos dados a Chicago e Tóquio para o Rio, os espanhóis não reclamaram do resultado final e agora discutem se vale a pena apresentar a candidatura de Madri para os Jogos de 2020.

Enfim, depois de duas semanas, estou de volta, para ouvir falar dos mesmo assuntos que ouvi na Espanha.

0 Replies to “Duas semanas na Espanha ouvindo falar do Brasil”

  1. Maurício, so um acréscimo. os números as vezes enganam. Realmente os espanhóis possuem muitas das estruturas exigidas. 75%. Mas não possuem justamente as maiores, mais custosas e trabalhosas. A Vila Olímpica (todos os candidatos só iniciam sua construção apos a confirmação da indicação), e o estádio olímpico. O Rio, por conta do Pan, possue quase 60% pronto. Chicago tinha muito pouco, e Tóquio estava no zero. Abraço.

  2. Ganhou a América do Sul mas, a vitória maior foi do Brasil, pois além de mostrar que tem a hegemonia da América do Sul, desde já constroi o grande edíficio não só dos esportes, como mostrarar para o mundo o seu potencial econômico, industrial, cultural e tecnológico. Viva o Brasil rumo às Olimpíadas 2016.

  3. Duas semanas fora e o Sr. só ouviu coisas boas do seu país e ainda assim acha que esteve no lugar errado? Agora ficou a impressão de participar da turma do “quanto pior, melhor”…

  4. Carl, a catástrofe na Ásia é horripilante e hiper dolorosa, mas acho que não te avisaram: aqui é um blog de um colunista es-po-ti-vo. ….Acorda.

    não sou carioca, mas estou feliz pela cidade do Rio que merecia isso, e que transporta para o Brasil este orgulho. Congratulaciones, Rio.

  5. Pior seria passar duas semanas na favela do buraco quente, desempregado e só ouvindo falar da Venezuela e de Chaves.

  6. Estamos atravessando uma situação muita estranha, no Brasil. Uma crise interna gigantesca, com milhôes de desempregados – principalmente nas grandes cidades, Falta de atividade em vários setores, salarios baixos dos que conseguiram manter os empregos. Segurança, saúde e educação funcionando precariamente, porém estamos sendo levados a acreditar que os 120 mil empregos que, dizem, serão gerados pelas Olimpiadas vão resolver todos estes problemas…

  7. Bom, agora chega de Oba-Oba e a imprensa faça o favor de ajudar a fiscalizar a gastança geral que vão ser esse Jogos Olimpicos.
    Ouvi dizer que é a mesma turma que superfaturou o Pan, que vai cuidar dessas Olimpiadas.
    Nossa !! não quero nem ver quanto dinheiro vai ser desviado em Superfaturamento nessas Olimpiadas que vão vir…

  8. Consegui entrar num blog onde não só a criticas as Olimpídas e a copa no Rio de Janeiro. VIVA O RIO (BRASIL).

    Nós merecemos essa oportunidade.

  9. Ato falho meu rapaz. O PIG está mordendo os cotovelos pela indicação do Rio de Janeiro. O Alberto está correto. Jà imaginaram se o Lula é indicado e ganha o Nobel da Paz? O que tem de gente que cortará os pulsos….

  10. Eu tenho uma amiga de Barcelona que mora em Sampa e não entende como a imprensa no Brasil aproveita qualquer fato para criticar o governo federal, ao contrário da estrangeira que reconhece o seu desempenho.
    Um abraço Consuelo.

  11. mais uma vez seremos medalhistas de ouro em desvios de verbase superfaturamentos de obras…..E falando em tragédias não precisamos de tsunamis com os políticos que temos

  12. Já fizemos por merecer o nosso lugar, fiquei feliz com a nossa vitória, e que o Rio o Brasil e a America do Sul, façam uma ótima olimpiádas, E viva o povo brasileiro…

  13. Pedro, quem são os “vira-latas”: as pessoas famintas que mendigam e dormem todos os dias pela ruas das cidades brasileiras; as crianças e adolescentes que morrem vítimas do trafio de entorpencentes, pois foram abondonadas pelos pais desempregados, que mendigam pelas ruas; ou ainda os milhares de servidores públicos, como a classe de professores(as), que desistimulados pelos baixos salários e as péssimas condições de trabalho, não exercem dignamente suas atividades e permitem que milhares de brasileiros como voce não tenham tido educação suficiente para compreender a função social e política do esporte, principalmente a força transformadora do futebol para contribuir na realidade de nações pobres e sob tragédias naturais contornavéis, quando há interesse e recursos.

  14. É,que pena meu amigo,o país está numa verdadeira encruzilhada,com problemas pipocando em todos os lugares,e o nosso presidente vem chorar lá fora porque fomos agraciados com a Olímpiada,não que o Rio não mereça,não é isso,linda por natureza,a cidade do Rio carece infelismente de duas coisas:do amor do próprio carioca pela sua cidade maravilhosa e,sobretudo,de políticas públicas de longo prazo.Não adianta fazer uma maquiagem somente para o período dos Jogos,é necessário que obras sejam feitas para toda a vida,para que os cariocas e seus filhos e filhas possam usufruir de uma cidade organizada,limpa com transporte público decente,se os políticos não forem hábeis para entender isso,então amigo o dinheiro investido na Olímpiada será dinheiro jogado no lixo ou….Dinheiro posto nas cuecas de polítocs corruptos.

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