Caetano Veloso lançou “A Foreign Sound” em 2004. Lembro que impliquei na época com o disco, no qual ele interpreta 23 canções em inglês, numa homenagem à música popular americana. Além de achar que as suas versões acrescentavam pouco aos originais, entendi então que o projeto expressava certo provincianismo.
Resolvi voltar ao CD neste final de semana, depois de assistir “Coração Vagabundo”, o documentário de Fernando Grostein Andrade, que acompanha Caetano bem no período em que ele lançava “A Foreign Sound” em Nova York e no Japão.
Como já apontaram vários críticos, é um filme irregular, que se afoga em alguns clichês (a começar pelo título) e mostra-se muito aquém do material bruto que o espectador intui estar disponível. Mas exibe algumas reflexões de Caetano muito interessantes, tanto sobre si mesmo quanto a respeito do lugar da cultura brasileira no mundo.
Como poucos artistas brasileiros, Caetano tem uma consciência muito clara do papel periférico da arte brasileira e do impacto avassalador, para o bem e para o mal, da cultura americana. Isso aparece em vários momentos do filme.
Num trecho, talvez o mais importante, Caetano polemiza com Hermeto Pascoal, que o havia criticado por falar bem da música americana. Irritado com a declaração, Hermeto disse que Caetano fazia “musiquinha”. Caetano responde no filme elogiando Hermeto como a prova de que os talentos brasileiros são excepcionais na comparação com o volume de grandes músicos americanos.
Em outro momento especial, Caetano fala do mal estar que sentiu por não conseguir se expressar claramente durante determinada entrevista, concedida em inglês, durante sua passagem por Nova York. Lembra que é um homem nascido e criado até os 19 anos em Santo Amaro, interior da Bahia, e que até hoje se sente inferiorizado (subdesenvolvido) em algumas situações.
Um parêntesis: em outra passagem do filme, Caetano conta que um chofer que o transportou em Nova York disse ter entendido pela primeira vez a letra de “Come as You Are”, de Kurt Cobain, ao ouvi-la em “Foreign Sound”, na voz do músico brasileiro. Confesso que me identifiquei. Só consegui entender as letras do Nirvana quando ouvi o CD “Unplugged in New York”, no qual Cobain e banda revisitam os seus sucessos com um pouco menos de barulho que o habitual.
Enfim, depois de ver o filme mudei de opinião em relação ao disco. Acho que entendo melhor agora a ambição de fazer um CD inteiramente em inglês. “Foreign Sound” é a um só tempo homenagem e provocação.

boa sacada.
rever-se é sempre bom.
contrera
Tudo que se entende por música popular, dos anos 1920 do século passado até agora, foi influenciado pela música popular feita nos Estados Unidos da América. E, antes de 1920, música popular, como a conhecemos faz uns 60 anos, simplesmente não existia. Nunca consegui entender -e nem concordar- com a idéia de que a riqueza dos Estados Unidos fez com que isso acontecesse. Será? Quanto ao sr. Pacoal, não sabe fazer canções. Músicos desse tipo sempre recorrem a canções para os seus improvisos que, na maioria das vezes, não significam nada. Não sei se eles improvisam porque são bons mesmo ou porque gostariam de compor canções com começo, meio e fim mas não sabem. James Lincoln Collier dizia isso, mas pode ser que ele não tenha razão, não seja regra.
Sempre enxerguei claramente um complexo de superioridade em músicos de jazz, ou músicos que se dizem de jazz, em relação aos compositores “normais”, aqueles que fazem canções e que não são bons tecnicamente como instrumentistas. Mas os feras, quando procuram um tema para improvisar, sempre vão em busca de canções bonitas para demonstrar a sua “superioridade técnica”. Na verdade, o estilo é o que vale, e não técnica jogada aos porcos. A técnica tem que estar a serviço do estilo, e não o contrário. Canções não são melhores ou piores porque possuem harmonias complicadas ou não. O complexo de superioridade é visível a olho nú. E instrumentistas lutam a vida inteira para serem tecnicamente superiores, superiores em dois sentidos, em relação aos outros e em relação a eles mesmos, ao instrumento. Alguém já disse que os músicos de New Orleans improvisavam porque não sabiam o que tocavam, não sabiam fazer canções. Então, tocavam a torto e a direito, e foram ficando tecnicamente bons em seus respectivos instrumentos. A meu ver, foi por causa disso que o sr. Pascoal disse que o Caetano Veloso (e muitos outros) fazem “musiquinha”. Tenho certeza que ele se sente o maioral, a autoridade máxima em relação à música, a última palavra. É isso aí.
Para mim, “Come as you are” é uma das músicas mais belas de Kurt. E Caetano soube dar uma nova roupagem, sem pieguismo e com outro tom de dramaticidade. Interpretação brilhante e muito diferente da original. Caetano em sua melhor forma.
E parabéns pelo texto, venho sempre aqui.
Arlindo Cruz tem um samba que diz “sabemos agora/ nem tudo que é bom vem de fora”.
Caetano chegou a dizer, na época desse seu álbum, que o cancioneiro americano é o mais belo do mundo. Uma flagrante injustiça, naturalmente, inclusive para com a carreira do PRÓPRIO Caetano.
Não sou ufanista, mas o brasileiro precisa perder seu complexo de vira-latas.
Pessoal, esse tal de Kurt Cobain é de doer de ruim.