Entrevista a Renato Góes, Folha Universitária, 23 de junho

Entrevista a Renato Góes, Folha Universitária, 23 de junho

Testemunha de uma época

A História do Lance!, escrito pelo jornalista Mauricio Stycer, revela os bastidores da maior publicação impressa de esportes do País

Por Renato Góes

O jornalista Mauricio Stycer pode ser considerado um profissional privilegiado. Não só por ter trabalhado em grandes veículos de comunicação ao longo de seus 24 anos de carreira, mas também por ter participado, em 1997, do processo de criação do Lance!, o jornal esportivo mais importante do Brasil. Durante os oito meses em que fez parte da equipe de redação, ele guardou textos e pautas da época, e-mails com discussões referentes a publicação, edições antigas, ou seja, material suficiente para registrar um momento de transição e “modernização” do chamado jornalismo esportivo. A reunião deste material fez surgir um livro – meio acadêmico, meio reportagem – intitulado a História do Lance!. O autor recebeu a equipe de reportagem da Folha Universitária em seu apartamento e nos contou um pouco desta passagem, além dos atuais desafios em sua carreira, que incluem reportagens especiais para o portal IG e a manutenção diária de um blog  http://colunistas.ig.com.br/mauriciostyc…). Confira.

Folha Universitária – O livro surgiu a partir de uma tese de mestrado, certo?
Mauricio Stycer – Sim. Eu fiz mestrado em 2005, mas queria estudar esse assunto bem antes. Já planejava fazer uma pesquisa sobre a história do Lance!. Apesar de ser um trabalho com um lado acadêmico, tem muito pouca discussão teórica, tem muito pouca citação a autores. É um trabalho forte na cadeia de reportagem de jornalismo, por um lado.

F.U. – O Lance! surgiu numa época em que já haviam outros dois jornais de esportes, a Gazeta Esportiva e o Jornal dos Sports. Como foi a implantação do projeto que você participou?

M.S. – O Lance! foi às bancas em 25 de outubro de 1997. Naquele ano, o jornal passou a ser pensado pelo dono, o Walter de Mattos Junior, em meados de 1996. A equipe pra fazer o jornal começou a ser montada a partir de maio e junho de 1997. Eu cheguei em agosto de 1997. Quando o Lance! foi pensado, existiam dois jornais esportivos no mercado. Em São Paulo a Gazeta Esportiva, que começou como um suplemento da Gazeta na década de 30 e se tornou independente na década seguinte. O outro era o Jornal dos Sports, que também começou a circular na década de 30 e que era o jornal de esportes mais importante do Rio.

F.U. – Destes dois, apenas o Jornal dos Sports ainda tem versão impressa.
M.S. – Exatamente. A Gazeta Esportiva fechou a versão impressa em 2001 e o Jornal dos Sports ainda tem sua versão, só que não é sombra do que era antigamente.

F.U. – O Lance! foi o grande culpado então?
M.S. – (Risos) Bom, o grande culpado eu não sei, mas sem dúvida foi o principal responsável por uma mudança total no mercado de jornalismo esportivo. A percepção que o Walter tinha é que havia espaço naquele período para um projeto de jornalismo esportivo “moderno”, ou seja, um jornal voltado para um público jovem, também de classe média, algo que os outros jornais não tinham preocupação. O Lance! também era popular, mas tinha a preocupação de buscar o leitor jovem de classe média. O jornal tinha vários artifícios pra iniciar uma conversa com esse público. Tem o “Fala Doente” até hoje, um torcedor inventado que fazia o papel de colunista. Tinha o “Cine Lance!” em que o personagem de um jogo era lembrado como um personagem de um filme. Por exemplo, hoje (jogo da seleção) o “predador” do jogo seria o Lúcio. Também tinha o mágico e assim por diante.

F.U. – Jornalismo esportivo nunca foi sua formação. Como você parou nessa?
M.S. – Tinha trabalhado com cultura. Na Folha fui editor de “Cidades”, fui correspondente internacional em Roma e nunca tinha sido jornalista esportivo. Gosto muito de futebol…

F.U. – Você é botafoguense, certo?
M.S. – Botafoguense roxo. Fanático. Mas assim como outras pessoas, eu fui chamado para o Lance! porque a tarefa de fazer um jornal esportivo é uma tarefa igual a de fazer um jornal de economia ou geral. Era preciso uma equipe mais experiente, nesse início, sobretudo, e foi incrível. Uma experiência maravilhosa.

F.U. – Quanto tempo você ficou?

M.S. – Oito meses. No ano seguinte, eu fui chamado para participar do projeto de criação da revista Época. Outro super desafio. Semanal, com apoio das organizações Globo e um super investimento que eles estavam fazendo. Me chamaram para criar a seção de cultura da revista. Achei também muito fascinante. Tem até algo que me esqueci de te falar. Quando o Lance! surgiu, não era criado no Brasil um jornal há 20 anos. Você vê que a imprensa ficou muito estagnada quanto investimento e mídia. E muita gente foi para o Lance! pelo fascínio de participar da criação de um jornal. De um novo jornal. E eu tive o privilégio de, num espaço de um ano, participar da criação de dois veículos novos. Depois veio o Extra, o Valor Econômico e teve um crescimento de mídia bastante grande.

F.U. – Você trabalhou um tempo relativamente curto no Lance!. Como surgiu a idéia de fazer o livro.
M.S. – Desde que eu pisei no Lance!. Eu não sabia que ia virar estudo. Eu já era professor de Jornalismo, mas não tinha uma idéia certa. Só fui fazer mestrado seis anos depois. Mas eu tinha idéia que aquilo dava um estudo o fato de participar da criação de uma coisa nova. Então, eu comecei a guardar documentos, circulares, e-mails, eu documentava as discussões que a gente ia tendo, as primeiras pautas, os primeiros exemplares. Tem muita coisa. Tudo pensando em um dia fazer um estudo sobre isso. Eu percebi que era uma coisa nova que estava acontecendo. Fazia tempo que não havia um novo jornal. Eu até cito o Jornal da República, de 1979, que não deu certo e durou menos de um ano. Só em 1997, com o Lance! é que surge um empreendimento jornalístico.

F.U. – Como sua formação era o jornalismo cultural, você tinha um certo preconceito com o jornalismo esportivo?
M.S. – O jornalismo esportivo é considerado uma área menor do jornalismo. É muito difícil um jornalista esportivo virar diretor de um grande jornal. Não é uma área em que se recrutam as lideranças de um jornal, mas sim política e economia. Os salários são menores. Todo “foca”, todo jovem quer entrar no jornalismo esportivo. É o lugar que todo mundo quer entrar. Dentro de um jornal é a área vista com menor prestígio.

F.U. – Na sua opinião, quais seriam as razões desta postura?
M.S. – É uma boa questão. Eu não a enfrento, só a constato no meu livro. Uma das razões, ao meu ver, é por ser uma área de pouca influência nas vidas das pessoas. Tem muito apaixonado, tem o lance da paixão, mas não importa para o País se o Flamengo ganhou ou perdeu o campeonato. Não são notícias que alteram o rumo das coisas, não mexem com o bolso da gente, só com a nossa paixão, nosso sofrimento, nossa alegria. Pode ser uma explicação. Um cara que tem acesso ao presidente vai ser mais respeitado que aquele que tem acesso ao Mano Menezes. Embora que, dentro do jornalismo esportivo, quem consegue falar com o Mano Menezes seja respeitado. Mas tem muito esse efeito de comparação.

F.U. – O jornalismo esportivo no Brasil se resume ao futebol?

M.S. – O sonho inicial do Lance! era que a cobertura esportiva fosse 60% futebol e 40% os outros esportes. Se chamava poliesportivo. Isso foi rapidamente diminuindo, rapidamente mudando para 2/3 e, se não me engano, hoje tem uma proporção de 80% para 20%. Teve um início poliesportivo forte, mas não conseguiu sobreviver só com esta cobertura mais equilibrada de outros esportes. Embora nesse meio entre o automobilismo, que tem gente que discute se é esporte ou não. Não tem mais esporte amador. O vôlei e o basquete não são esportes amadores. O jornal não conseguiu sustentar esta proposta. A pressão em dar espaço para mais futebol era muito grande e a paixão das pessoas é o futebol. É uma coisa artificial dar quatro páginas de campeonato de vôlei todo dia. As pessoas não estão interessadas em vôlei. Você vai estar forçando uma importância que não se reflete no interesse das pessoas. É complicado. Para quem gosta, para quem curte, para jornalistas que trabalham nessa área é sempre um sofrimento. Só tem alegrias de quatro em quatro anos com a Olimpíada, que é o momento que ganha um pouco mais de espaço.

F.U. – Atualmente você trabalha como repórter no IG, onde também tem um blog.
M.S. – Estou desde agosto de 2008 com a dupla função. A primeira, a mais importante, é ser repórter do portal. O IG, por meio do Último Segundo, que tem uma equipe de repórteres que fazem matérias além das aglutinações de notícias vindas dos parceiros, já tem uma produção de conteúdo próprio. Eu fui chamado para reforçar esse time. Eu faço algumas matérias por semana, não a matéria do dia, mas pegando eventualmente algum assunto do dia. Paralelamente, a segunda função é o blog diário onde eu tenho liberdade total para escrever o que eu quiser.

F.U. – Você já tinha trabalhado com Internet?
M.S. – Não. Tem sido um contato com um mundo novo para mim. Estou achando fantástico. Principalmente que existem milhares de possibilidades novas ali. Havia muito preconceito de que na Internet só se copia, se reproduz a mídia impressa e hoje eu vejo que não, que jornalismo e Internet podem ser muito criativos e gera conteúdo próprio, de qualidade, que repercute na mídia impressa e essas possibilidades são muito interessantes. E tem também uma coisa maravilhosa que é a relação com o leitor.

F.U. – Antigamente você escrevia um texto no jornal e recebia uma carta um tempo depois. Hoje você acabou de postar um texto no blog e a resposta do leitor é imediata…
M.S. – … tem também a correção, que é algo fantástico. Antes você publicava uma matéria errada e na melhor das hipóteses vinha uma errata dias depois. Hoje se tem a possibilidade de se corrigir na hora. Quando é algo significativo você tem que informar que a matéria foi corrigida. Se é uma palavra errada, eu nem aviso, mas se é algo significativo, eu faço questão de informar. As pessoas comentam rapidamente e percebo um público mais jovem. É bom para sentir a temperatura. As pessoas comentam, respondem imediatamente. É um público novo consumindo notícia. Não é fantasia, não é idealização. Eu vejo, de fato, que há um novo tipo de consumidor de notícia frequentando o site. Eu acho que ele não lê os jornais, só que se sente à vontade lendo um site para comentar e discutir a opinião dele. Sou jornalista há 24 anos, e esse é meu primeiro ano na Internet, mas realmente eu vejo de uma forma muito positiva. É verdade que existem vários problemas como a facilidade de comunicação que, às vezes, é destrutiva. Quer dizer, o cara entra anonimamente pra te xingar, para defender opinião de terceiros. Tem um monte de problemas ainda, mas o lado positivo é muito maior. E eu acho que é o grande campo do trabalho do jornalista. Os mais velhos precisam vencer o preconceito.

A entrevista pode ser lida também aqui ou em pdf, no site do jornal, procurando-se a edição 404.

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