Na ótima entrevista que o arranjador Eumir Deodato concedeu a Jotabê Medeiros, na edição deste domingo do Estadão, reaparece um tema divertido, pelas discussões calorosas que provoca e os vários clichês envolvidos: a rivalidade entre Nova York e Los Angeles. Estabelecido nos Estados Unidos desde a década de 60, Deodato enxerga Nova York como a cidade do trabalho e Los Angeles como um lugar de diversão e dolce far niente. Essa visão aparece claramente quando é indagado sobre a carreira do músico Moacir Santos nos Estados Unidos. Depois de um tempo em Nova York, Santos mudou-se para Los Angeles. Diz Deodato:
- Eu achei que ele devia ter ficado em Nova York, eu o aconselhei. Mas tem muita gente que, quando dá aquele ventinho de novembro, todos vão para a Califórnia. Para ir ao churrasco do Sérgio Mendes. Porque a vida na Califórnia é assim, não é? Você acorda às 3 horas da tarde, vai na piscininha, toma um banhozinho. É fácil, toda casa tem. Sai, seca, senta ao telefone, mas aí já passou das 5 horas, não tem mais ninguém no escritório. Então, vai tentar descobrir onde é que é a feijoada hoje. Muita gente foi assim. Tiveram de voltar, porque o dinheiro acaba.
Deodato dá a entender, sem falar de forma explícita, que também enxerga uma oposição semelhante entre São Paulo e Rio de Janeiro. A capital paulistana seria o lugar do trabalho e a capital fluminense, do lazer – reza o clichê que ele parece evocar. O músico Roberto Menescal, radicado no Rio, escapou dessa armadilha, diz Deodato:
- Esses acervos assim, tipo o que o Menescal fez com o Albatroz, isso aí vale muito dinheiro. Mas ele é muito safo, sempre foi. Enquanto todo mundo fica pensando que ele está andando de barquinho, está lá no escritório dando telefonemas.
