Lobo Antunes: a arte de estimular a leitura

Lobo Antunes: a arte de estimular a leitura

O que faz uma conversa sobre livros ser melhor que a outra? Por que o encontro com o escritor português Antonio Lobo Antunes foi o melhor da 7ª Festa Literária de Paraty? Arrisco algumas explicações: Lobo Antunes falou sobre o ofício de escrever, um tema fascinante, com humor e ironia. Evocou referências conhecidas do grande público, fez referência a escritores brasileiros famosos – até jogadores de futebol foram citados.  Também discorreu sobre seus pais e avós, um assunto de fácil identificação, e não cansou de fazer citações, sempre divertidas, de autores famosos. Enfim, uma aula sobre como conversar com um grande público sobre literatura e estimular o desejo de ler.

Reproduzo abaixo algumas frases de efeito, ditas durante a conversa, mediada pelo jornalista Humberto Werneck:

Sobre a família
Eu tinha 12 anos. Meu avô me chamou e disse: “Ouvi dizer que você escreve versos. Você é viado?”

Meu pai não queria ter filhos, queria ter campeões de caratê. Tínhamos que ser os melhores em tudo.

Minha avó achava o alemão um bom idioma para falar com os cavalos.

Sobre literatura brasileira
Para mim, o grande poeta do século XX é Cabral (João Cabral de Mello Neto). Também gosto de Drummond

Com a prosa (brasileira) tenho uma relação mais difícil. Começo a ler, tenho vontade de corrigir.

Jorge Amado gostava de me abraçar, me beijar. Ele dizia: “Gosto de lamber minhas crias”.

Sobre o ofício de escrever
Perguntaram a Picasso sobre a sua inspiração. E ele: “Ah se ela viesse quando estou trabalhando”.

Paulo Mendes Campos falava da importância de Didi para Garrincha. Para escrever você precisa ter Garrincha (mão) e Didi (cabeça) dentro de você

Escrevo um livro para corrigir o anterior.

Gosto dos livros de Garcia Marquez, mas não teria prazer de tê-los escrito.

Advérbios são palavras que existem para não serem usadas. Adjetivos, aquelas putas, dizia Cortazar.

Um bom livro se faz sozinho. Se a mão esta feliz, o livro sai bom.

13 Replies to “Lobo Antunes: a arte de estimular a leitura”

  1. Acho que eu iria gostar dele tb. Nunca li, tanta coisa para ler, mon dieu!
    Queria ter 30 anos, juro, mas aos 30 eu queria amar, amar, trabalhar e estudar nas horas vagas e escrever para meu amado.
    Acho que eu sei falar com as pessoas, mas não sei falar de literatura. O que é a literatura? não sei responder.
    Um abração, Elianne
    Vou colocar seu artigo nas minhas páginas por ai.

  2. Apenas e tão sómente apenas, após ler seus estimulantes e críticos comentários sobre a FLIP, lembro de uma matéria da Veja onde Maria Clara Machado disse que um repórter sugeriu que ela procurasse outra profisssão pois esta de escritora ela não tinha. Ela muito triste mostrou ao seu pai, que disse continue, vc escreve bem. E o tempo mostrou.
    Seus comentários da FLIP, são tão pessoais que deveriam ficar para você ” O Rei das Letras”, nossa!!!! Com certeza.

  3. Geraldo Anízio
    olá! Agradeço a visita feita a meu Blog. Foi bom ter mantido contato com vc, se não fosse assim, não teria conhecido também seu jornal eletrônico. Parabéns!

  4. Geraldo Anízio
    Sobre Lobo Antunes eu já havia lido algo sobre a pessoa dele. Ninguém escreve bem, se não souber bem o que vai escrever! Esse é o grande segredo para quem aspira escrever. A literatura nos ensina que não interessa sobre o quê! O que importa, é como desenvolver esse quê! Kafta em Metamorfose, o protagonista transforma-se numa barata; um inseto um tanto nojento, no entanto, a literatura de Kafta é de carácter internacional. Para as pessoas que não gostam de ler, aconselho ler algo cujo conteúdo seja de muito interesse. Isso vale também a ser recomendado, ou repassado a alguém que goste por exemplo de futebol. Certamente se for do time dele, ele dará toda atenção. O segredo começa por aí. Abraço

  5. Para quem não sabe, vivemos os resquícios de uma sociedade falocêntrica e paternalista, não me surpreendendo os comentários do autor, quanto ao seu pai n aprovar o gosto dele pela literatura e sim pelas artes marciais.
    Bom, concordo com ele quando fala da habilidade do manezinho..(Garrincha) um dos maiores jogadores de todos os tempos.Quanto ao Gabriel Garcia Marquez, tbm acredito ser ele um dos maiores gênios da literatura do século XX.
    Mas discordo quando fala que ao ler algumas obras brasileiras, sente vontade de corrigí-las. A crítica literária é necessária, sim, mas tbm n podemos deixar de frisar que toda leitura é muito subjetiva. Além disso, nela está empregnada não só as impressões e vivências do autor, mas tbm uma relação histórica e cultural.
    A literatura existe para ser sentida…imaginada…

    Abraços

  6. Realmente as observações dessas frases estimulam e insentivam qualquer um a leitura. Nesses pequenos exemplos ficou claro que Lobo Antunes tem um amplo repertório de leituras e que, de certa forma, sua obra revela essa profusão de “influências”

  7. gostei muito do que vc escreveu, as frases pinçadas…
    muitas vzs retratam mais do que uma análise crítica… E depois cada um que tire suas interpretações. De fato foi o grande momento, a noite com Lobo Antunes. para o país que só fala em Saramago, foi ótimo ele se mostrar quem ele é , fora a aula sobre o ofício de escrever, né…

  8. a conversa de antonio lobo antunes com humberto werneck foi linda, emocionante e divertidissma. a melhor da 7a. flip, tambem na minha opiniao.

  9. Olá escritor, redator, jornalista, editor correspondente, glamouroso senhor dos entrelaçamentos linguisticos. Sinto dizer que não pude participar da FLIP, este EVENTO não literário em Vossa apreciação e sim, em Vosso dizer UMA FESTA DE Celebridades, distante dos propositos literarios. Eu que sofri por não poder ir, sinto não compartilhar da sua hibernação literaria ,e pretendo um dia encontrar com meu escritor preferido para falarmos sobre os encantos e desencantos da vida e chegarmos a lugar nenhum. Pode ser que você seja a pauta.

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