Em 1995, o Datafolha realizou uma grande pesquisa nacional sobre racismo no Brasil. Para esmiuçar os dados, a “Folha de S.Paulo” convocou uma equipe de jornalistas, que foi a campo produzir reportagens e entrevistas a partir dos dados levantados. O resultado foi a publicação do caderno especial “Racismo Cordial”.

A mim coube, entre outras tarefas, entrevistar o geógrafo Milton Santos (1926-2001), uma das mais respeitadas figuras de sua área no mundo. Santos recebeu uma cópia do relatório do Datafolha antes da entrevista e não gostou nada da pesquisa. Como eu estava há mais de um mês envolvido com os dados, não aceitei sem refutar vários dos questionamentos do geógrafo.

Na visão de Santos, o Datafolha havia formulado de forma errada inúmeras questões da pesquisa e definiu mal a idéia de preconceito. O geógrafo acusou o jornal de fazer marketing com o levantamento, entre outras críticas.

A entrevista foi duríssima, com críticas não apenas à pesquisa, mas também às minhas questões. Perguntei, por exemplo: “O senhor defende o chamado sistema de cotas?” Resposta: “Essa pergunta gera um bloqueio do debate. Porque você só tem duas formas de responder: sim ou não.” Indaguei então: “Qual seria a pergunta correta”. E Santos ensinou: “O que eu devo fazer para que o negro entre e permaneça na universidade?”

Em outro momento, depois que Santos acusou a pesquisa de ser um objeto de marketing, houve o seguinte diálogo:

- Constatar o racismo é marketing?
- Não. Marketing é fazer perguntas apenas sobre o discurso e não sobre o comportamento. Estou exagerando, porque há perguntas sobre comportamento. Já estou pensando na próxima, que eu sei que a “Folha” vai fazer.

De fato, 13 anos depois, neste domingo, o jornal refez as mesmas perguntas da pesquisa de 1995 e publicou o ótimo caderno especial “Racismo”. Desconfio que Santos fosse criticar, mais uma vez, o resultado do trabalho.

Em tempo: A entrevista com Milton Santos foi publicada, com a anuência do geógrafo, que a reviu, no livro “Racismo Cordial” (editora Ática, 1995). E foi republicada no livro “O País Distorcido” (Publifolha, 2002).

9 comentários to “Milton Santos e o “racismo cordial””

  1. Marcio Alves disse:

    É muito bom saber que ainda existem pessoas com tal visão.

  2. PATRICIA ROMERO disse:

    Muito bom..quando se diz o que realmente se pensa, com inteligência e principalmente bom senso….

  3. Silvio disse:

    O professor Milton Santos foi um brasileiro dos mais lúcidos e conhecedor de questões como o racismo e desigualdade social. Pena que em seu próprio país são poucos os que tiveram contato com seu legado. Essa, sem dúvida é uma grande demonstração do quanto a discriminação ainda grassa em nosso país.

  4. Renato disse:

    É lamentável que no Brasil nem os negros conseguem de forma racional e coerente debater sobre o racismo. Ademais, há sim uma visão distorcida sobre realmente o que é racismo e o que não é. Como branco (ou politicamente correto, eurodescendente), não posso nem olhar de soslaio a um negro, que sou logo rotulado como racista. Ademais, acusar um branco de racismo há muito virou arma para os negros. Se esquece que o contrário também existe. Exemplo disso foram os dias em que estive a trabalho em Salvador/BA. Senti na pele o que é ser vítima de racismo. Mas, quem irá dar ouvidos a um branco vítima de racismo?

  5. Paulo J. disse:

    Não conhecia a entrvista citada, nem o livro no qual foi publicada. Mas tive o privilégio de ouvir o Prof. Milton Santos, e ler dois de seus livros. Dá para perceber que o (bom) repórter e cronista soube assimilar a maneira correta e professoral pela qual o entrevistado soube esclarecer o cunho maniqueista da pergunta sobre as cotas, sem deixar de responde-la; assim como a crítica sobre a forma superficial com que o marketing enfoca, ou tira do foco(?) a realidade.

  6. Isabel Cristina Antônia dos Santos Moura disse:

    Milton Santos e toda a luta e debate que vieram antes, durante e depois dele traduzem muito bem oque é o Brasil e o que é o rasismo brasileiro. Naturalmente, nem todos têm a capacidade acadêmica, lucidez e sabedoria para falar sobre o assunto, mas todos, exaltados, defensivos ou acusadores querem a mesma coisa: o fim do tratamento que a população negra tem tido desde seu sequestro na África. Existem muito mais vozes querendo falar, querendo oportunidade, mas a mídia não dá vez a quem não dá ibope, muito menos fora de datas pontuais. É preciso levar a sério este assunto, e eu, infelizmente, não sinto isso!

  7. André Oliveira disse:

    Então, no fim das contas ele tinha razão.

  8. 1000king disse:

    Como decodificar tamanha lucidez em frases desafiadoras de cunho e fruto de uma cabeça que elaborou o raciocínio bucólico de uma realidade dissimulada que assola a grande maioria da população?……………..nós pérolas não mais sozinhos no mundo, buscamos um lugar ao sol. E quem de nós. Participantes da grande engragagem não busca dentro de sua vâ filosofia tamanha utopia?………………Grandioso Mestre..Obrigado…….

  9. nathalia disse:

    oieeeeeeeeeeeeeeeeeeee

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