"NY Times" aceita financiamento externo para reportagens

"NY Times" aceita financiamento externo para reportagens

Mais respeitado jornal do mundo, o “New York Times” é hoje, também, o principal termômetro da crise que atinge gravemente a mídia impressa nos Estados Unidos. Todos os seus passos são monitorados no esforço de entender quais são as saídas – se é que existem – para a perda de leitores e a queda na receita de publicidade que afetam todos os jornais do mundo.

Em sua mais recente coluna dominical, o “public editor” (o ombudsman do jornal) Clark Hoyt discutiu um passo ousado – chocante mesmo, para a velha guarda – que o “Times” resolveu adotar na tentativa de reduzir as despesas sem perder a qualidade de suas investigações jornalísticas. Trata-se de buscar financiamento externo, fora do jornal, para a realização de reportagens.

Hoyt conta a história da jornalista Lindsay Hoshaw, que vive de free-lancers, ou seja, sem emprego fixo. Ela sugeriu ao “Times” fazer uma reportagem fotográfica sobre uma massa de lixo flutuante que percorre o oceano Pacífico, mas precisaria de US$ 10 mil (R$ 20 mil) para os gastos com a viagem, a bordo de um navio de pesquisas. O jornal informou que poderia pagar, caso a reportagem o interessasse, US$ 700 pelas fotos e mais um pouco se comprasse também o texto.

Lindsay Hoshaw partiu, então, em busca de financiamento externo para a sua reportagem. Procurou o site Spot.us, uma comunidade formado por jornalistas investigativos com o objetivo de arrecadar recursos para as suas matérias. Se conseguir US$ 6 mil até a data de partida do navio, em setembro, ela vai arrumar um empréstimo para custear o resto (já conseguiu, até agora, US$ 1,6 mil).

Escreve o “public editor”: “Para alguns, isso é exploração – o poderoso ‘New York Times’ forçando uma empenhada jornalista a mendigar com uma caneca virtual. Mas Hoshaw não pensa assim. Para ela, é uma oportunidade que ela não pode perder – uma matéria que ela sonha fazer há muito tempo e a chance de sair no ‘Times’. Para David Cohn, fundador da Spot.Us, uma organização sem fins lucrativos, é uma maneira de o público financiar o jornalismo que ele quer. Para o ‘Times’ é um novo passo na direção de um mundo impensável até poucos anos atrás”.

Como outros jornais, o “New York Times” construiu sua reputação e prestígio justamente com base na absoluta independência econômica. Entre outras implicações, tomada a decisão de fazer uma reportagem, da mais séria à mais leve (como uma matéria de turismo, por exemplo), o jornal sempre custeou todas as despesas dos jornalistas envolvidos na tarefa.

Foi assim por décadas e décadas. Não é mais. Escreve Hoyt: “À medida que as receitas com publicidade caem e a tecnologia altera drasticamente a relação do público com os meios de comunicação, o ‘Times’ está buscando novas fontes de dinheiro e se abrindo para parcerias e arranjos distantes do velho modelo, no qual editores decidem o que é notícia, escalam os seus repórteres e pagam as despesas – tudo isso sustentado por centenas e centenas de anunciantes, nenhum deles grande o suficiente para influenciar o jornalismo”

O “public editor” conta em sua coluna que o “Times” está fazendo outras parcerias, com outras entidades, além da Spot.Us, como a Pro.Publica, uma organização sem fins lucrativos dedicada ao jornalismo investigativo, fundada por banqueiros bilionários, cujos negócios já foram alvo de reportagens críticas do próprio jornal.

Herbert e Marion Sandler, os fundadores da Pro.Publica, ganharam muito dinheiro com o financiamento de hipotecas, mas saíram do negócio um pouco antes da quebradeira geral que deu origem à crise atual na economia americana.

A Pro.Publica é, assim, um exemplo interessantíssimo sobre as possibilidades e limites desta nova – e, aparentemente, inevitável – forma de financiar o jornalismo. Hoyt descreve todo o esforço da organização para conseguir mais fundos e se tornar totalmente independente do casal Sandler.

E o “public editor” conclui sua coluna com as palavras do presidente desta fundação, Alberto Ibarguen: Se os jornais não trocarem o modelo “eu escrevo e você lê” por parcerias com organizações externas e abertura à participação do público na feitura das notícias, “o mundo vai passar por cima deles”.

Aqui você encontra a coluna de Hoyt, One newspaper, many checkbooks.

7 Replies to “"NY Times" aceita financiamento externo para reportagens”

  1. A “grande” e elitista imprensa brasileira sempre agiu de forma parecida, só que aqui sem nenhum pudor!

  2. Olá!

    Nunca comentei por aqui, mas devo dizer que acho esse blog/coluna interessantíssimo.

    Quanto ao assunto ora tratado, à primeira vista isso me parece absurdo. É claro que nunca existiu jornal totalmente imparcial, mas a ideia de ter matérias financiadas por terceiros é demais pra minha cabeça. E essa história da Lindsay Hoshaw? Que loucura é essa? Ela gasta 10 mil, gastou outros milhares de dólares em equipamentos e o jornal quer pagar 700 dólares pelas fotos? E ela que se vire pra arranjar o dinheiro para financiar a viagem? Tudo pelo capital simbólico de ter o nome no jornal?

    Não sei qual a saída para a crise do impresso. A que foi “criada” pelo jornal americano não me parece válida.

    Um abraço.

  3. Isso é tudo o que os jornais querem.
    Jogam no colo dos seus profissionais a responsabilidade de salvar um modelo que está em xeque a cada dia. Esquecem que não foram os jornalistas responsáveis pela má admnistração dos veículos.

    Por mais que os custos de uma pauta sejam caros e a pauta seja um sonho do jornalista, o que vale mesmo é o interesse público e para publicar isso os jornais precisam assumir a responsabilidade, inclusive em relação aos custos.

    Só falta os “grandes veículos” cobrarem dos repórteres para trabalharem nas suas “renomadas” redações.

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