O documentário como exercício de reverência

O documentário como exercício de reverência

Mostra SeloA safra brasileira de documentários nunca foi tão fértil, como comprova o cardápio da 33ª Mostra de Cinema de São Paulo. Há documentários de todos os tipos, para todos os gostos.

Entre os títulos disponíveis, identifico um tipo de documentário muito peculiar, que é o “filme de homenagem”. Assisti a três com esta característica: “Mamonas Pra Sempre, o Doc”, “A Raça Síntese de Joãosinho Trinta” e “Caro Francis”.

MamonasMamonas Pra Sempre, o Doc”, de Claudio Kahns, é um filme para fã nenhum botar defeito. Com ótimo material de arquivo e depoimentos de parentes, amigos, conhecidos e, especialmente, do produtor musical e do empresário que cuidaram da banda, o cineasta descreve de forma cronológica a impressionante história de sucesso dos Mamonas Assassinas.

Kahns não discute várias questões interessantes, apenas esboçadas no filme, como a ruptura com a lógica do mercado que os Mamonas representaram, os sentidos da transgressão da banda e, não menos importante, a qualidade do trabalho musical dos garotos de Guarulhos. Não é esse o seu objetivo. Em compensação, o cineasta brinda o espectador com uma sequência impressionante de imagens, que vai fazer o fã cantar e chorar com os Mamonas.

Joaosinho TrintaA Raça Síntese de Joãosinho Trinta”, de Paulo Machiline e Giuliano Cedroni, se propõe a explicar a trajetória de um dos mais importantes nomes do Carnaval brasileiro com base nos depoimentos de três pessoas apenas (Fernando Pamplona, Carlos Heitor Cony e Ferreira Gullar). O filme acompanha o carnavalesco durante a preparação do desfile da Grande Rio em 2003, “O Brasil que Vale”, que deixou a escola em terceiro lugar.

Debilitado por problemas de saúde, Joãosinho Trinta fala um pouco sobre a sua visão de cultura popular, mas não desenvolve nenhuma grande questão. Ao acompanhá-lo pelo barracão da Grande Rio, podemos vê-lo em ação – rigoroso e exigente com os responsáveis pela montagem de carros alegóricos –, mas em momento algum o documentário deixa a superfície para mergulhar, de fato, no mundo do carnavalesco.

FrancisCaro Francis”, de Nelson Hoineff, é definido pelo próprio cineasta como uma “homenagem pessoal” ao jornalista Paulo Francis, de quem foi amigo por mais de 20 anos. Hoineff não se furta a abordar episódios polêmicos na carreira de Francis, mas quase sempre sob o olhar de amigos do jornalista.

Francis é descrito nos depoimentos como uma pessoa gentil, um amigo dedicado e um jornalista polêmico, cujo ápice de popularidade ocorreu quando se transferiu para a televisão e vestiu uma espécie de “máscara” na tela. Para quem acompanhou as diferentes etapas da carreira de Francis, não é difícil entender o desenvolvimento desta narrativa. Mas o tom escolhido por Hoineff termina por abafar a própria vivacidade do personagem.

Em tempo: Já escrevi sobre dois outros documentários em exibição na Mostra que, na minha visão, fogem deste modelo. No blog, comentei sobre “Os Gracies e o Nascimento do Vale Tudo” , de Victor Cesar Bota. E entrevistei para o Último Segundo o mesmo Nelson Hoineff de “Caro Francis”, também diretor de um dos filmes mais ousados desta leva, “Alô, Alô, Terezinha”. O título da matéria reproduz uma declaração do cineasta: “Chacrinha vale um trilhão de vezes mais que a TV idiotizada de hoje”.

“Mamonas Pra Sempre, o Doc” tem ainda uma sessão, na próxima terça-feira (3/11), às 15h20, no Cinesesc. Mais informações no site da Mostra.

“A Raça Síntese de Joãozinho Trinta” tem duas sessões, na próxima segunda-feira (2/22), às 14h30, no Espaço Unibanco Pompéia, e na terça (3), às 17h20, no Unibanco Artplex. Mais informações aqui.

“Caro Francis” tem mais uma sessão, na próxima terça-feira (3/11), às 14h30, no Espaço Unibanco Pompéia. Mais informações aqui.

2 Replies to “O documentário como exercício de reverência”

  1. Caro Sticer, beleza? Sou documentárista e no primeiro semestre de 2010 serão lançados dois documentários em que participo e/ou como diretor, pesquisador e produtor. Os dois são sobre samba… só que samba em Belo Horizonte. Digo “só que” por que Minas é vista – para quem ve o mundo de maneira superficial – como um lugar sem samba. Minas tem samba????? perguntam as pessoas com tom acusatório. Mas escrevo este comentário para registrar meu contentamento quanto ao seu gosto – e desgosto, em alguns casos – por documentários. Em suma, você é um apreciador da coisa, certo? Sendo, peço sua opinião sobre o que você chama de “deixar a superfície para mergulhar”?

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