O falso poema de Drummond que circula na Internet

O falso poema de Drummond que circula na Internet

Em meio à discussão sobre o BBB9, quinta-feira, aqui no blog, um leitor que assina Valdeir postou, a título de comentário, um longo texto em forma de poesia, intitulado “Recomeçar”, assinado por Carlos Drummond de Andrade. O texto começa assim: “Não importa onde você parou… em que momento da vida você cansou… Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo…”. Em outra passagem, lê-se: “Um novo curso… ou aquele velho desejo de aprender a pintar… desenhar… dominar o computador… ou qualquer outra coisa… Olha quanto desafio… quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te esperando”.

Algumas horas depois, ainda pegando fogo a discussão sobre o BBB, o leitor que assina Bruno enviou a seguinte mensagem: “Não consegui achar uma referência concreta, mas aposto a minha cabeça que o poema supracitado num dos comentários NÃO é do Drummond. Pelo amor de Deus, parem de disseminar textinhos toscos de auto-ajuda vagabunda como se fossem obra de grandes autores!!! E se o texto de fato for do Drummond (probabilidade ínfima), então ele escreveu coisa ruim também, porque este é sofrível. Mauricio, por favor, não deixe isso passar impune aqui. Propagação de ignorância é crime, e seu blog não é lugar pra isso.”

Estimulado por Bruno, resolvei investigar. A simples menção no Google a Carlos Drummond de Andrade e “Recomeçar” traz quase 27 mil citações. Há inúmeras versões do poema recitadas em vídeo, no You Tube, e em centenas de sites e blogs. Pesquisando mais, acabei chegando ao site “Meu Anjo”, mantido pelo programador Paulo Roberto Gaefke. Ali, é possível ler que o texto, na verdade, é de autoria do próprio Gaefke. Bem humorado, ele respondeu ao e-mail que enviei, em busca de um esclarecimento: “Drummond deve revirar na tumba ao ver o meu texto com o nome dele”, disse.

Autor de dois livros de poemas, publicados por conta própria, o programador mantém o site desde abril de 2000. Até 2002, assinava as suas mensagens apenas com um bordão – “eu acredito em você” – e o seu primeiro nome, Paulo. “Daí virou uma festa”, ele conta. “Cada um repassava acrescentando um ponto e diversas mensagens minhas (mais de 2 mil) estão por ai sem a devida paternidade… como ‘Revolução da Alma’, que atribuem a Aristóteles (sic), ‘Paciência’, atribuída ao Jabor, e a clássica ‘Recomeçar’ (que também é conhecida por ‘Faxina na Alma’)”.

Para surpresa de Gaefke, ao final do seu texto, em algum momento no ano de 2003, alguém acrescentou os versos “Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura” e assinou “Carlos Drummond de Andrade”. Tal citação foi entendida como se o texto inteiro fosse de Drummond, e se espalhou como praga pela Internet. Mas, lembra o verdadeiro autor do texto, nem esses versos são do poeta mineiro, mas de Fernando Pessoa (estão em “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro).

Conta Gaefke: “Quando eu pesquisei no Google a primeira vez, tomei um susto. Esse texto estava em mais de 50 mil sites com autoria de Drummond. E para provar que era meu foi uma briga…”. Registre-se que, pesquisando na Internet, encontrei várias mensagens de Gaefke em blogs e sites que publicaram o seu texto como sendo de Drummond, alertando os autores para o engano.

Encerro, então, este post com a reprodução do belo poema de Caeiro:

VII – Da Minha Aldeia
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe 
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos 
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

72 Replies to “O falso poema de Drummond que circula na Internet”

  1. Em outra passagem, lê-se: “Um novo curso… ou aquele velho desejo de aprender a pintar… desenhar… dominar o computador…

  2. Concordo com o leitor Edinardo – “na época de Drumond ja tinha computador?” – vamos parar de usar nomes de escritores e poetas de renome para se fazerem

  3. Tornou-se uma febre na internet lançar textos, poemas e poesias com os nomes dos autores errados, e o mais triste é que muitos não o fazem apenas por desconhecimento ingênuo, pelo contrário, por pura má-fé e disseminação de informações errôneas. O que dizer do belo texto “Felicidade Realista” de Martha Medeiros, que atribuem insistentemente a Mário Quintana? Nem todo brasileiro pode comprar livros e ter acesso às fontes bibliográficas seguras, assim a internet se torna único recurso para se obter conhecimentos e novos saberes, contudo acabam sendo lesados por meia dúzia de desocupados.

  4. Não é o caso de Gaefke, mas muitos autores que estão começando agora e sobrevivem no anonimato assinam seus textos como obras de grandes autores…
    E a causa disso é a falta de credibilidade à VERDADEIRA cultura do Brasil, não a inútil vista todos os dias num programa de tv como o BBB.

  5. Obrigada por demonstrar nesta matéria a importância da pesquisa. Pq eu sou uma pessoa que recebo vários textos e sempre fico na dúvida se realmente é do autor mencionado. Mas por comodidade, nunca me interessei a buscar informações que pudessem confirmar a verdadeira autoria.
    Claro, nao posso deixar de dizer que esses textos são lindos (mesmo seguindo a linha de auto ajuda) e fácil colar e copiar e encaminhar para mil pessoas…. Mas gostei do que li aqui por um simples detalhe. Preciso sair do meu comodísmo e pesquisar mais.
    Obrigada pela dica.
    Beijos

  6. Mauricio, misturar Drummond em discussão de BBB já é desqualificá-lo demais. Eu tô cansado ver e receber esses e-mail de listas em que os textos são atribuídos a L.F. Veríssimo e Arnaldo Jabor. Uma lástima.
    Paz e bem.

  7. Ah, não se esqueçam que Ana MAria Braga tem publicado um livro com uma série de frases de filósofos mas é ela quem assina o livro, se isso pode …

  8. Sou tão grande quanto ao que meus olhos alcançam! Ai esta; gostei não me importa quem escreveu! Agora vocês querem ver um autor ser idolatrado, e fazer sucesso no Brasil e no mundo? Grana, muita grana em divulgação! Já vimos muitos artista plástico e escritores pobres, que só depois de morrer no anonimato, tiveram seus trabalhos reconhecidos!

    Vou aproveitar o gancho e deixar uma lembrança, quem sabe eu tbm não bata as botas! rsrsrsr!

    DECADENTES DEVANEIOS

    Uma infância inocente, um coração pulsando forte.
    Entre sonhos e devaneios, festas e fantasias.
    O uirapuru nos alegrava, com os gorjeios do seu cantar.
    E no riacho cristalino, fazíamos festas a nadar.
    Canta, canta uirapuru.
    Desperte com seu cantar, um país jovem varonil.
    Que crê na ordem e progresso, e tem o nome de Brasil.
    Nascer, crescer, semear fraternidade, paz e amor.
    Todo dia, é dia de ser feliz, amem…

    Mas nossos antepassados acreditaram em acordos, para nossa conveniência.
    Não se falava em maldade, e o bem era definido.
    Criamos um elo e manietemos a nós mesmos.
    Ao nos vermos subjugados, aceitamos tais imposições.
    Muitos tentaram quebrar estes elos.
    Buscavam liberdade e independência.

    E mesmo num clima conturbado.
    O uirapuru cantava triste e distante.
    Mas o riacho ainda era cristalino, transparente e borbulhante.

    Impossibilitados de preservá-lo, como parte da natureza.
    Alguns Chicos sucumbiram, pagando altos preços.
    Outros Mendes, cheios de fé e esperanças, logo as perderam.
    Caminhos violentos e tortuosos dobraram suas vontades.

    E o uirapuru já não existe, e se existe está sumido.
    E os riachos cristalinos, tornaram-se córregos poluídos.

    Tiranos que se impuseram, através de suas fórmulas.
    Mais tarde também serão, vítimas do que semeiam.
    Em suas sementes contêm, ambição ao poder.
    Intenção de possuir, se apossar e escravizar.
    Tanta voracidade…! Por pura vaidade! Que pena…! Tudo ilusão!
    Como crianças gananciosas, se tornaram insaciáveis.
    E mesmo com a boca cheia, e as mãos abarrotadas das melhores porções.
    Ainda têm olhos compridos, nas migalhas dos semelhantes.
    É humilhante, e me revolta. O tempo passa indiferente…

    Crianças se tornam adultas, em meio à violência.
    Esperam a qualquer momento, que marginaizinhos.
    Criados pelo sistema, lhes de um tiro… Melhor assim.
    A conviver com a fobia, de se tornarem velhos e decrépitos solitários.
    Abandonados no mundo, sem amor, sem esperanças e sem fé no futuro.
    Os que acreditaram, estão tendo decepções.
    O sistema castrou seus sonhos, e a muitos assassinou.

    E do uirapuru, já não se ouve mais o cantar.
    E no riacho, outrora cristalino, não é possível mais nadar.

    Mas surgem novas vidas.
    E as esperanças se renovam, em corações puros e inocentes.
    Mas o cantar do uirapuru, eles não mais ouvirão.
    Nem poderão dar um mergulho, no poluído ribeirão.

    Cabia a nós. Chinfrins pentacampeões do mundo.
    Por questões de ética e justiça.
    Discordar da política do pão e circo.
    E entregar aos nossos descendentes, tudo o que herdamos.
    Senão melhor, nas mesmas condições que encontramos.

    Eu tenho pátria, e a pátria é a mãe de um povo.
    Mas tem filhos que são da pátria.
    E tem filhos que são da P…
    Confundindo patriotas com idiotas.

    O desabafo acalenta e acalma as aflições da dor doida que dói na alma.

    A mente contaminada pela ilusão material, é um solo fértil, onde germina a semente do engodo, da ganância e injustiça; que são os alicerces de destruição da humanidade.

    Autor independente: janciron@hotmail.com
    Janciron

  9. Conheci Drummond, itabirano como eu e sei que ele, cético e algo pessimista, JAMAIS escreveria uma porqueira dessas. A não ser que, no além, as almas voltem para o jardim de infância.
    Aqui, no caso, um jardim de infâmias…

  10. Há séculos (milênios?) autores desconhecidos assinam suas obras tomando nome de outros autores. A causa mais provável dessa falta de bom senso é um fato inegável: um bom texto assinado por um desconhecido é facilmente desprezado por incultos (e até por certos pseudo-intelectuais).

    O nível de certificação de uma pessoa não garante boa formação (já vi muitos mestres melhores que pós-doutores e livre-docentes), mas pode provocar nela uma certa arrogância cultural: “Eu só leio Pessoa” “Eu adoro Bandeira”, e por aí vai…

    Mas é fato que somente um leitor crítico e proficiente é capaz de enxergar (em qualquer texto) qualidades e vícios que vão além da assinatura, afinal, dia após dia presencio declarações de amor a Machado de Assis e escárnios contra Paulo Coelho, mesmo sendo poucos os que tenham lido suficientemente a ambos.
    Nas aulas de literatura da USP, perguntei a alguns professores o que achavam do Paulo Coelho; um deles respondeu:
    “É terrível, cheio de erros de português”
    “Você leu quantos livros?”
    “Na verdade nenhum! Eu comecei e desisti”

    Suspirei e pensei: “Se um professor livre-docente em literatura se julga no direito de ‘odiar’ um autor sem ler seu material, o que dirá daqueles que pouco sabem sobre ‘direitos, deveres e ética’?

  11. Pior eu que comprei uma daquelas poesias em adesivo para colar na parede como sendo do Fernando Pessoa e, no final, era uma compilação de frases do Augusto Cury! Que mico!

  12. Para quem pergunta se na época de Drummond já existia computador: Ele morreu em 1987 com 85 anos. O computador já existia desde a II Guerra Mundial e o computador pessoal existe desde dos anos 70. O Apple I foi lançado em 1975 e o Apple II em 1977. O mesmo primeiro computador foi um TK 90X (um Spectrum) lá por volta de 1986.

  13. Outro dia, pesquisando poemas de Victor Hugo, deparei-me com “Desejo”, atribuído ao grande escritor francês.
    Desconfiado, fui pesquisando, até descobrir que o cantor Roberto Freja tinha gravado uma música com grande parte deste poema (música que foi utilizada até em progaganda do Banco do Brasil co ma voz de Freja).
    Pois bem, continuando minha pesquisa fui descobrir que o poema é do escritor gaúcho Sérgio Jockyman.
    Vai saber como se deu a mudança de Kockyman para Victor Hugo nos Créditos do poema que. na verdade, chama-se Votos?
    E o pior: a música de Freja é assinada por ele e por Mauricio Barros/Mauro Sta. Cecília.
    Pobre do Sérgio Jockyman, primeiro tem seu poema atribuído a Victor Hugo, depois o Freja o musica sem mencioná-lo.

  14. Aí seus manés ignorantes, já está na hora de parar de assistir esta “joça” de Bib Brother Brasil e começar a ler, afinal o que falta no brasileiro é cultura….e “classe”.

  15. Quem troca a leitura e a pesquisa em livros (incluindo enciclopédias) por “navegação” na “Grande Rede – Internet”, que todos sabemos ser terra de todo mundo e, portanto, terra de ninguém, corre o risco de ser enganado.

  16. ” Oh pequena batata
    que se espalha pelo chão
    a infante enquanto dorme
    põe a mão no coração…
    Linda menina (o?) semeie as batatas da terra
    Então não haverá mais fome no mundo”

    seria de Wilde, Oscar?

  17. Quando vi este poema em muitos sites sendo de Drummond fiquei despontada, não pelo seu “desvalor”, mas porque não tem a “cara” do Drummond. Vejo muitos textos também de Clarice Lispector. Coitada da Clarice… Cabe a nós, leitores de bons autores, saber fazer um diagnóstico preciso sobre a veracidade deles. Mas isso não é tão difícil não.

  18. O caso mais curioso foi a crônica “Quase”, atribuído erroneamente a Veríssimo. Ficou tão famoso que foi traduzido para o francês, com o título “Presquè” e mereceu um belíssimo texto do mestre, que faz uma crítica bem humorada sobre a internet e a divulgação indiscriminada de textos apócrifos, mas creditados a nomes conhecidos da literatura.

  19. Rebeca o caso em pauta não é nem a qualidade do texto e o uso indevido do nome de outro autor, você gostaria de ver um texto escrito e assinado com o seu nome? eu não gostaria, por mais estrito que fosse.

    A internet cabe tudo não ha pesquisa de quase nada que é postado qualquer um cria uma nova teoria tirada do nada, quase tudo é LENDA URBANA – agora a moda é o virtual já que tudo é virtual vamos continuar cada vez mais idiotas e acreditando em tudo que é postado.

    Eu sou J.Barros ou não? quantos de vocês são reais?

  20. Nunca achei que aquele poema tivesse o perfil do Drumont. É por isso que não podemos confiar em pesquisa de internet.

  21. Não é porque o texto não é de Drummond que vamos ridicularizar o que outras pessoas escrevem. Cada um tem seu espaço, seu estilo, e cada um tem quem admire o que se escreve. Afinal, não é atoa que o texto rodou muito. Se fez tanto sucesso, tem lá seus motivos.
    Ele não é Drummond, mas é gente e está tentando.
    Pra falar de Drummond não precisa ridicularizar ninguém, pois a poesia de Drummond fala por si.
    Sacerdote.

  22. Bom, é muito triste ver tanta gente criticando assim um autor que nem tinha a real dimensão do que estava se passando, e se tivesse, o quê mais ele poderia fazer? A internet dá essa liberdade pras pessoas escreverem e postarem o que bem quiserem.

    Outro ponto é dizer que o texto é péssimo, ruim ou coisa do tipo, porque se fosse tudo isso de fato, não havia tanta questão em cima disso, além da propagação do mesmo em diversos sites.

    Portanto, deixemos o falso moralismo de lado e vamos encarar que ocorreu um mal entendido provocado pelos próprios leitores e que já foi devidamente explicado. Só isso e nada mais.

  23. Caro Mauricio, fico feliz em ver que algumas pessoas conseguem ainda, diferenciar os verdadeiros autores das poesias, hoje com o computador é um tal de copiar e colar, principalmente no Orkut , e muito das vezes nem os citam deixando a enteder que foram eles proprios que o fizeram. Ai é só dar uma lidinha no perfil que vc ja percebe logo de cara o grau de intectualidade. Deixar de dar credito ao autor ou atribuir a outro e falta de leitura mesmo.

  24. Como é dificil lidar com gente ignorante. O poema é de Drumond, é lindo e se chama “Faxina na alma”.

  25. Agora, falando sério, se o poema não é mesmo de Drumond, como afirma o repórter, fui enganado, não pela Internet, mas por uma pessoa que me presenteou há tempos. Também se o texto circula desde 2003, porque do alarde? Mas de qualquer maneira não difere de auto ajuda e indiferente de quem escreveu, é muito bonito. Pelo menos desviei a atenção de quem discute BBB.
    “Não sou nada. Nunca fui nada. Nunca poderei ser nada. A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Fernado Pessoa.

  26. Isso só mostra a decadência do que era considerado um clássico como o Drummond e agora virar apenas um nome em meio a tantos outros, além de ser atribuído a ele obras de valor menor e a confusão envolvendo fragmentos de poemas do alberto caeiro que também era outro clássico e agora entrou, assim como o DRummond, para a vala comum da banalidade da internet.ISSO É UMA VERGONHA.
    ps:todos deveríamos pedir desculpa a esses dois grandes nomes da literatura(Drummond e o Fernando Pessoa), pois eles reinventaram, de certa forma,o modo de enxergar a literatura e a internet está destruindo qualquer visão do que é realmente a literatura.

  27. E o pior de tudo é que a Ana Maria Braga no seu programa certa vez deixou a tal msg “faxina da alma” e disse que era de Drumond e no final ainda disse, faça igual a ele pense nisso!
    Só não me lembro em qual programa foi, mas asseguro que aconteceu.

  28. Memória

    Amar o perdido
    deixa confundido
    este coração.

    Nada pode o olvido
    contra o sem sentido
    apelo do Não.

    As coisas tangíveis
    tornam-se insensíveis
    à palma da mão

    Mas as coisas findas
    muito mais que lindas,
    essas ficarão.
    Drumond

  29. Até que enfim surgiu uma polêmica interessante. Pelo menos as pessoas estão discutindo sobre assuntos inteligentes. Se foi engano de autor, tudo bem. Parece que já foi esclarecido. Ufa! Esqueceram de discutir amenidades como o programa da Globo.

  30. Infelizmente, esta uma das facetas ruins da Internet, da velocidade da tecnologia. A informação está a um “clic”, fazendo que o desejo de conhecimento esteja atrelada a idéia de rapidez para obtê-lo. E com isto, infomações duvidosas, fontes não confiáveis se tornam caracteríticas determinantes de nosso tempo. Hoje, os estudantes não mais vão às bibliotecas (ainda existem?) buscar material, conteúdo e informações para suas pesquisas escolares. O charme da poeira dos livros, a sensação deliciosa de saborear cada linha de um livro, as camada de poeira dos livros que adquirimos e que ficam encostados como enfeites em nossas estantes foram substituídos pela pela sedutora idéia do conhecimento em um clique.

  31. Já que estamos falando disso….escrevi esse agora a pouco…

    Para que amar?
    Sabendo que tudo vai passar
    Estaremos os dois a chorar
    E nunca chegaremos a nenhum lugar

    O amor machuca e nos faz sofrer
    Nos mata sem morrer
    Nos faz cegos sem perceber
    Sem você o que fazer?

    O amor nos faz sorrir
    Até você decidir partir
    Hoje você me fez cair
    Mas levantar vou conseguir

    O amor rima com dor
    Quando outro não da valor
    Foi apenas por um rumor
    Que perdi meu grande amor

    Talvez o amor seja uma grande ilusão
    Começa sempre com muito tesão
    O que não falta é paixão
    Para no final nos cortar o coração

  32. O Deus de cada homem

    Quando digo “meu Deus”,
    afirmo a propriedade.
    Há mil deuses pessoais
    em nichos da cidade.

    Quando digo “meu Deus”,
    crio cumplicidade.
    Mais fraco, sou mais forte
    do que a desirmandade.

    Quando digo “meu Deus”,
    grito minha orfandade.
    O rei que me ofereço
    rouba-me a liberdade.

    Quando digo “meu Deus”,
    choro minha ansiedade.
    Não sei que fazer dele
    na microeternidade.

    Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

    Página principal do site MEMÓRIA VIVA

  33. Soneto da perdida esperança

    Perdi o bonde e a esperança.
    Volto pálido para casa.
    A rua é inútil e nenhum auto
    passaria sobre meu corpo.

    Vou subir a ladeira lenta
    em que os caminhos se fundem.
    Todos eles conduzem ao
    princípio do drama e da flora.

    Não sei se estou sofrendo
    ou se é alguém que se diverte
    por que não? na noite escassa

    com um insolúvel flautim.
    Entretanto há muito tempo
    nós gritamos: sim! ao eterno.

    Carlos Drummond de Andrade

  34. Aurora

    O poeta ia bêbedo no bonde.
    O dia nascia atrás dos quintais.
    As pensões alegres dormiam tristíssimas.
    As casas também iam bêbedas.

    Tudo era irreparável.
    Ninguém sabia que o mundo ia acabar
    (apenas uma criança percebeu mas ficou calada),
    que o mundo ia acabar às 7 e 45.
    Últimos pensamentos! últimos telegramas!
    José, que colocava pronomes,
    Helena, que amava os homens,
    Sebastião, que se arruinava,
    Artur, que não dizia nada,
    embarcam para a eternidade.

    O poeta está bêbedo, mas
    escuta um apelo na aurora:
    Vamos todos dançar
    entre o bonde e a árvore?

    Entre o bonde e a árvore
    dançai, meus irmãos!
    Embora sem música
    dançai, meus irmãos!
    Os filhos estão nascendo
    com tamanha espontaneidade.
    Como é maravilhoso o amor
    (o amor e outros produtos).
    Dançai, meus irmãos!
    A morte virá depois
    como um sacramento.

    Carlos Drummond de Andrade

  35. Poemas retraídos, todo poema é lindo, todos tem encantos, todos tem batismo ,e seu único autor, uma pena, várias penas, que solicitem Drummond, para legitimar suas dores.
    Drummond, sofreu, exclamou, amou, morreu, sempre Drummond, notável Drummond, nunca copiou ilusões ou sonhos que não fosse os seus, nem a amargura importou.
    Isso é crime, nojento crime.

  36. Quem L~e sabe quando não é Drummond ou outro autor que é muito citado – Luis Fernando Veríssimo. Só sendo mesmo ignorante (do verbo ignorar) em estilo para acreditar nessas correntes imbecis que circulam na internet. Deleto na hora.

  37. O respeito ao autor e nomeá-lo ao citar ou reproduzir sua obra, é declarar honestidade inata.
    Mas, na verdade, pouco importa sua origem ou seu autor. Importam apenas as palavras, sua força, aquele “que” que adentra a alma, acalenta o espírito, faz pulsar mais forte o coração e deixam os olhos orvalhados. Essa é a verdadeira poesia, seja seu autor renomado ou não.

  38. Precisamos ler, sentir e viver mais a poesia embebida em nossas almas, a poesia da vida e a poesia dos poetas…”Penetra surdamente no reino das palavras, lá estão os poemas que esperam ser escritos. CDA”. Ah, é muito bom conhecer e ler a obra de Drummond. Em breve desenvolverei um projeto muito interessante intitulado: “UMA VIAGEM PELA POÉTICA DRUMMONDIANA, DESVENDANDO A DOCE HERANÇA LITERÁRIA EM ITABIRA”.

  39. Pior ainda: quando a pessoa não sabe de onde vem o dito que quer usar então diz: “como dizia meu avô”… e a gente tá careca de saber que aquele conhecido ditado nada tem a ver com seu avô.

  40. vc precisa comer muito arroz e feijão para chegar apenas aos pés desses 2 nomes da literatura, cabeção!

  41. Mauricio,
    pensa assim, no mínimo, estamos evoluindo, deixando de falar de BBB, e falando e não conhecendo, mas já é um ínício, de Carlos Drummond, Fernando Pessoa, bom né ?
    A propósito ,continua um charme….rsrsrs, muda esta foto não
    Ro

  42. Obrigado pela oportunidade de esclarecer a autoria do texto…fico impressionado com os comentários em ver comao tem gente nal-amada nesse mundo! Só gente mal-amada pode desfiar tanto veneno…aliás,falamos, escrevemos e expressamos somente aquilo que temos na alma, e por esse aspecto, notamos que tem muita gente cheia de fel.
    Por outro lado, eu nunca me preocupei com fama e por isso, mal assinava meus textos. Faz oito anos que escrevo diariamente e segundo o Google Groups e o Grupos tenaho 87 mil leitores diretos e deve chegar a 100 mil indiretos, que me seguem ano após ano. O meu site recebe mais de 50 mil visitantes por mês, e eu não divulgo, não faço spam, nem aceito novas inscrições…por isso eu “me lixo” com a opinião dos mal-amados.
    Escrevo porque preciso, é uma febre interna, ainda que eu malatrate a língua portuguesa de vez em quando, nada como o Drummond que escreveu essa pérola: “Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
    na carícia de ser e balançar
    Esferas harmoniosas sobre o caos.

    A bunda é a bunda
    redunda.! e que muda a vida de muita gente ao ler esse texto tão esclarecedor…
    Enagraçado que o meu Recomeçar foi lido em congresso de professores, audiências públicasa, em formaturas, sempre como sendo do drumnmond, e quando descobrem que é do Paulo R. Gaefke, alguns até retiram do site, chega a ser engraçado.
    Eu? eu me divirto, e continuo escrevendo todos os dias…escrevo principalmente para o meu entendimento, pois sou o primeiro a ser impactado pela mensagem, e sempre existe alguém que me escreve e diz: parece que você escreveu para mim, para o meu dia. Esse reconhecimento é muito melhor que uma cadeira na Academia de Letras de qualquer lugar e para os “gênios” de plantão, recomendo o texto Sociedade, do verdadeiro Drummond, que mostra a hipocrisia em sua face mais deslavada.
    http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema007.htm
    Um abraço para todos e para fainalizar, cito eu mesmo, que eu não sou besta de não aproveitar e fazer meu comercial:
    “Mesmo perdidos em nossos devaneios,
    não deixamos de desejar dois destinos:
    um quer a glória passageira da fama,
    Outro quer apenas
    a vitória sobre nossos dramas,
    ser feliz no anonimato do tempo.”

    Paulo Roberto Gaefke
    http://www.meuanjo.com.br

  43. Maurício, não sei se você já viu, mas circula um texto, principalmente na internet, de um jovem que se apaixona, e mais para frente a sua amada revela-se como a cocaína. Dizem que esse texto é “supostamente” psicografado e o espírito é de Faroukh Bomi Bulsara…FREDDIE MERCURY…conhece esse texto?

    No meu humilde ponto de vista…uma afronta a memória de Freddie!

  44. Olá!
    Adorei a sua postura crítica e investigativa de dar a César o que é de César!rsrs Na internert, de fato, publica-se muito lixo e propaga-se a ignorância com grande velocidade. Acredito ser de grade importância discutir questões do tipo e é uma postura, na minha opinião, inovadora. É uma forma de chamar atenção dos leitores virtuais para o que é veiculado na internet e se aquilo tem alguma carga de veracidade… Não devemos nos iludir com as primeiras pesquisas :90% é lixo mesmo, e pior totalmente “in-resciclável”.

  45. Que discussão proveitosa…eu mesma já fui criticada por atribuir a frase de fernando pessoa – pasmem – a Ele mesmo! devido a essas falsas informações que circulam na net. Como professora de L portuguesa, admiro quando há interesse pela verdade… e convenhamos, não há nada que lembre drumond em recomeçar, não é mesmo?

  46. Ainda bem que a mesma internet onde veiculam textos, cuja autoria não se confirma, serve para desfazer os equívocos. É preciso aprender a identificar um autor pelas marcas que ele deixa no texto. Afinal, um texto constrói a imagem do seu dele e do seu leitor.

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