O “pé na bunda” como obra de arte

O “pé na bunda” como obra de arte

Um belo dia a francesa Sophie Calle abriu o computador e, entre os novos e-mails, havia uma mensagem de um namorado comunicando o fim da relação. Confuso, ambíguo, mal escrito, o texto segue a clássica cartilha do rompimento amoroso: “a culpa não é sua, é minha”, insiste o autor do e-mail.

“Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecemos”, escreve o cara. “Mas hoje seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quanto eu ter se tornado irremediável”, prossegue. “Cuide de você”, encerra.

Sem saber como responder. Sophie Calle resolveu fazer algo a que tem se dedicado com sucesso já há 30 anos: transformar a vida cotidiana, inclusive a sua, em objeto da arte. Ela convidou 107 mulheres, das mais diferentes profissões, a interpretarem a carta.

Uma juíza viu no texto uma honesta “rescisão de contrato”. Uma revisora apontou erros, redundâncias e construções mal feitas. A criminologista concluiu que o autor da carta é “elegante, charmoso e sedutor”, mas também “orgulhoso, narcisista e egoísta”. Uma adolescente foi sucinta em sua interpretação: “Ele se acha!”. A delegada de polícia não viu qualquer crime na carta: “Afinal, não nos apaixonamos por nossa própria conta e risco?”

Sophie Calle fotografou as diferentes mulheres que interpretaram a carta e fez vídeos, nos quais outras pessoas, como as atrizes Maria de Medeiros e Victoria Abril, apresentam diferentes leituras do documento.

Tudo isso reunido integra a exposição “Cuide de Você”, exibida em 2007 na Bienal de Veneza, e depois na França, Canadá e Estados Unidos. Desde sábado, 11 de julho, e até 7 de setembro, está em exibição em São Paulo, no Sesc Pompéia. Entre 22 de setembro e 22 de novembro, a exposição poderá ser vista no MAM da Bahia, em Salvador.

Artista performática, Sophie Calle tem se dedicado a diferentes experiências, mais ou menos controladas, ao estilo de “Cuide de Você”, desde o início de sua carreira. Em 1979, seguiu um desconhecido pelas ruas de Paris, conheceu-o, depois continuou seguindo-o numa viagem a Veneza, enquanto documentava todo o processo com fotos. No mesmo ano, escolheu ao acaso 28 pessoas para dormir na sua cama, em turnos consecutivos de oito horas, por uma semana, fotografando-os.

Em duas ocasiões diferentes pediu à mãe que contratasse um detetive particular para segui-la, sem que ela soubesse, e criou exposições com as fotos e relatórios do investigador. Uma versão desse trabalho foi exibida na 28ª Bienal de São Paulo, em 2008.

Antes de inaugurar a exposição no Sesc, na sexta-feira, 10, Sophie Calle participou da 7ª Festa Literária de Paraty, numa mesa intitulada “Entre quatro paredes”. Adivinhe quem dividiu a mesa com ela? O escritor Grégoire Bouiller, autor de “O Convidado Surpresa” (CosacNaify), recém-lançado, ex-namorado de Calle e, “por acaso”, autor da carta de rompimento que deu origem à exposição “Cuide de Você”.

Na véspera do debate, que seria o primeiro encontro entre os dois desde o e-mail de rompimento, Bouiller e Calle foram vistos dividindo uma mesa, animadíssimos, num restaurante em Paraty. Durante o debate literário, o escritor defendeu o direito de dar um pé na bunda na namorada. “Não é proibido dar um fora em alguém”, disse. “Sei que isso provoca dor, mas todo mundo tem o direito de amar alguém e deixar de amar”.

Irônica, Sophie Calle respondeu: “Mas o e-mail terminava com a frase ‘cuide de você’. E você sabe que eu sei me cuidar”. A exposição em cartaz em São Paulo mostra que a artista tem razão.

19 Replies to “O “pé na bunda” como obra de arte”

  1. Adorei!!!!! As idéias são para lá de criativas. Já estou reservando o dia para visitar a exposição.

    Obrigada pela dica!

  2. O mundo da arte é curioso, não?

    acho fascinante como essa pessoa pode ter idéias malucas e faturar em cima delas…

    e tem público, prestígio, fãs etc… muito interessante…

    vale tudo no mundo dos espertos, não é?

    mas não deixa de ter um toque de oportunismo nessa originalidade… ce la vie!

  3. Maurício,

    um pergunta: por que pé na bunda?

    em inglês existe a expressão “dump” alguém quando se termina um relacionamento… dump significa jogar no lixo, despejar fora, descartar…

    por que expressões tão pesadas para um fim de relacionamento?

    o que será que tem de tão pejorativo em ouvir o outro dizer que não nos ama mais?

    por que dizer “levei/dei um belo pé na bunda do meu namorado/a, marido/esposa etc.”?

    por que dizer “I was dumped by my boyfriend” ou “I dumped him/her”?

    os dois estão no mesmo nível como seres humanos até o momento em que um pára de amar o outro primeiro e aí o outro vira mercadoria de segunda categoria?

    enfim, pano pra manga aí tem…

    Resposta do Mauricio: Boa questão… Não sei a resposta… Alguém se habilita?

  4. Pergunta para Mariana? O que vc entende como oportunismo?

    O mundo da arte é um mundo para aqueles que sabem transformar o que parace comum no novo. É transformaçao, criatividade, libertação e novo olhar sob algo que parecia despercebido.

    Nunca vem com manual de instrução. Pode ou nã criar um dialogo com aquele que o aprecia.

    O artista sério não esta desvinculado de interesses..como qualquer profissional.

  5. “””C’EST LA VIE! “”” Se não sabe francês, não escreva. Se não compreende arte, não opine! Confundir uma original manifestação artística com “oportunismo” é o cúmulo da ignorância.

    No caso de Sophie, de nenhuma maneira com o fim de seu relacionamento o namorado virou “mercadoria de segunda categoria”. Pelo contrário, ela apenas quis compreender o rompimento sob diferentes visões de mundo femininas, sem de maneira alguma denegrir a imagem dele. O trabalho de Sophie é de uma originalidade ímpar e merece ser contemplado. Claro, por aqueles que possuem sensibilidade suficiente para tal.

  6. Pé na bunda acontece com todo mumdo ? é inevitável …
    pra que esquentar, remoer ? Levante a cabeça, supere e continue vivendo !

  7. todo encanto com o tempo tende a empalidecer porém ele não se extingue apenas muda de objeto é a famosa busca pelo pote de ouro no fim do arco-íris. isso é interminável. olhem a natureza em volta de vocês.
    “É melhor abrir mão de uma paquera do que de um amigo. Acredito que a maioria dos homens não tem esse tipo de competição, a ponto de brigar. Isso é coisa de mulher”. existem muitos psicólogos para inventar teorias mirabolantes sobre todos assuntos da vida quando na verdade seria muito mais simples analisarmos a nossa situação e a do outro: o homem,
    na maior parte do tempo, procura diversão e a mulher, por sua vez, esta à procura de um esteio financeiro. o homem anda pelas ruas completamente vestido: não esta à venda. a mulher, quanto menos roupa melhor, procura um comprador. ai é so pensar
    um pouco: o que é mais fácil de encontrar. melhor sempre é encarar a verdade e procurar meios de transformá-la.

  8. Mauricio Stycer,
    Belo presente a matéria e seu texto muito gosto de ler.
    Para seu incentivo mais um seguidor.
    Parabéns e abraços.

  9. Oi Marina, me desculpe nada pessoal, mais pé na bunda, fora, chifre é igual em qualquer lugar, quem nunca levou ou quem nunca aplicou? – No caso da Sophie ela transformou a sua situação comum em uma tese de mestrado ela é inteligente e oportunista achei legal – mais o pé na bunda continuou o mesmo.

    Vamos parar de intelectualizar as mazelas do cotidiano – vamos em frente que a fila anda.

  10. Acontece com todo mundo. E hoje com muito mais frequência e fica muito mais fácil usar a tecnologia como recurso facilitador para expressar o que muitas vezes não temos coragem de dizer pessoalmente. Não é julgamento, apenas uma análise da situação que ao expor o e-mail para outras pessoas Sophie tenha reunido olhares externos para algo inter de sua relação e transpor de forma poética o quanto nos “homens” somos frágeis ao lidarmos com o fim de um relacionamento.

  11. Eu concordo, sim, com a teoria do oportunismo.
    Só ver o que isso já vendeu de jornal e revista!
    E a comoção, todos esperando o barraco vir abaixo na Flip enqto os dois riam felicíssimos.
    Afinal, essa estória deve ter feito um bem enorme ao cofrinho de ambos….
    E discordo da pessoa que respondeu pra Marina:
    A Arte está disponivel para toda e qualquer pessoa que por ela se interesse.
    Não é exigida cartila básica e o observador tem todo o direito de tirar dali o proveito e a opinião que bem entender.
    Que raiva é essa? Só pq não concordaram com você?
    A discussão é sobre a exposição ou é pessoal?
    Acho empobrecedor que as criações atuais passem pela super exposição de si e do outro (tantas vezes sem o devido consetimento alheio).
    É o fim dos tempos, Big Brother disfarçado de criação inteligente.
    Apela para o que a gente tem de mais infantilizado.
    E Madame Sofie Calle é tudo menos uma mocinha – que tenha tomado o primeiro pé na bunda e não consegue engolir!
    Faça-me o favor! Grow up!

  12. Acho uma grande bobagem alguém dedicar 30 anos de sua vida com alguém do passado. Passado é passado o nome já diz. Mesmo que seja fazendo obra de arte. Geralmente os erros e acertos da vida de um ser humano servem para fazer dele ou dela um ser melhor.

  13. Acho que vocês não prestaram atenção ao namorado: ele é um escritor renomado; como poderia escrever com erros? Claro que foi armação entre os dois, uma obra de ficção. Mas foi esperto!

  14. O melhor tratado sobre arte moderna você encontra em Caras e Bocas, Chico joga um monte de tinta num quadro e isso é vendido por um preço bastante elevado. Eu prefiro Gilles Lapouge que afirmou que hoje em dia tudo virou cultura, mas ele ainda prefere a cutura literária. Mas achei bacana quando Sophie enviou sua cama para um sujeito que afirmou que queria dormir na cama dela. Então é isso e viva Graciliano Ramos, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e Marguerite Duras.

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