Paulo Guilherme, CartaCapital, 29 de maio

Paulo Guilherme, CartaCapital, 29 de maio

Gol literário

Paulo Guilherme

Ex-redator-chefe de CartaCapital, Stycer foi contratado como um dos editores-executivos da equipe inaugural do Lance!, que chegou pela primeira vez às bancas em outubro de 1997. O fundador, Walter de Mattos Júnior, queria que seu jornal “levantasse o moral” do torcedor, mesmo diante de uma derrota vexatória do time. A proposta trouxe dificuldades a serem resolvidas. Como ser crítico

e imparcial diante da alegria e da tristeza de quem torcia e ainda garantir as vendas do diário?

O editor sabia estar diante de um momento histórico da imprensa nacional, e resolvia as questões conforme elas apareciam. Faz vinte anos desde que um jornal diário desse porte havia sido criado no País. Stycer saiu dele oito meses após ter sido contratado e deu início a uma minuciosa pesquisa sobre a imprensa esportiva para sua dissertação de mestrado em Sociologia, agora publicada em livro.

A obra é recheada de citações bibliográficas exigidas de um trabalho acadêmico. Mas tem leveza e sagacidade ao apresentar os bastidores do Lance! O livro mostra como o diário, mesmo moderno, colorido, com diagramação ágil ao estilo internet e em formato tabloide, via-se atrelado ao bairrismo dos meios de comunicação e às ligações perigosas entre donos de jornais e dirigentes. O Lance! não era o primeiro a enfrentar o problema. No início do século passado, a imprensa esportiva já via o futebol como patrimônio da elite, e a ela se dirigia.

Os fãs de futebol também encontram no livro ótimas histórias de bastidores.

Uma delas envolve o ex-técnico da seleção brasileira João Saldanha, que fez os jogadores se abaixarem dentro de uma Kombi para que o time pudesse curtir a noite longe da imprensa. Stycer revela ainda e-mails internos com troca de farpas entre os colegas de redação. Em uma ocasião, o jornal foi no mínimo ludibriado ao publicar uma possível vinda de Romário para o Corinthians. A notícia acelerou a contratação do Baixinho pelo Flamengo, desejo do jogador. No calor do fechamento de um jornal, assim como em uma partida de futebol, de vez em quando alguém entra “de carrinho”.

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