Bob Dylan, Pete Seeger e o machado

Bob Dylan, Pete Seeger e o machado

O texto sobre os 90 anos de Pete Seeger, comemorados com um show em Nova York, levou alguns leitores a reviverem aqui no blog uma polêmica que já dura 44 anos. Confesso que não lembrava mais dos detalhes da história, relatada de diferentes formas pelos leitores Wilbury, Ricardo e Beto. É um caso muito bom.

Em 1965, numa famosa guinada em sua carreira, Bob Dylan resolveu trocar o violão acústico – instrumento que usara desde o início da carreira, em 1961 – pela guitarra elétrica. A sua primeira aparição pública com o novo instrumento ocorreu no dia 25 de julho, no palco do Newport Folk Festival – um reduto de Seeger, da música folk e da canção de protesto.

Todas as versões sobre o que ocorreu em Newport concordam que Dylan apresentou-se com uma banda nova, com quem nunca havia tocado, e que ensaiou muito pouco a sua participação no festival. Howard Sounes, autor de “Dylan, a Biografia”, um dos livros mais recentes e respeitados sobre o músico (publicado em 2001 e lançado no Brasil pela Conrad), descreve assim o que aconteceu no palco:

Bob entrou no palco com uma jaqueta de couro preto e liderou sua banda de moderninhos em uma versão furiosa de “Maggie´s Farm”. Mike Bloomfield se encurvou sobre a sua guitarra elétrica tocando uma profusão de notas que se fundiam e se transformavam em feedback. A mixagem de som estava confusa. A banda não conseguia ouvir com clareza, e a meio caminho de “Maggie´s Farm” o ritmo foi para o brejo. Aquilo estava longe do folk-rock. Era uma barulheira inacreditável com um volume incrível.

O que aconteceu em seguida deu origem à polêmica histórica entre Seeger e Dylan. Reza a lenda que, furioso de ver Dylan com a guitarra elétrica, Seeger correu para a mesa de som e pediu que o som fosse desligado. Diante da recusa, cortou o cabo de som a golpes de machado. 

Seeger sempre negou essa história. Segundo já disse em várias entrevistas, e está relatado no livro de Sounes, Seeger reconhece que, primeiro, gritou para os músicos que ninguém estava entendendo o que eles tocavam e depois foi até a mesa de som, onde exigiu que os técnicos ajustassem o volume. O empresário e o produtor de Dylan, porém, impediram Seeger de interferir. Normalmente calmo, o pai da canção de protesto americana explodiu: “Se eu tivesse um machado, cortava o cabo”.

“Eu não tinha um machado e não cortei o cabo”, diz Seeger. “Eu disse que se eu tivesse um machado cortaria o cabo”. “A história ganhou tal ímpeto”, escreve Sounes, “que Seeger admite que até a própria esposa não acredita nele”.

Em tempo: como relatei no post que deu origem a esta discussão, Bob Dylan não compareceu à festa em homenagem a Pete Seeger, mas uma música sua foi tocada no show. Adivinhe qual? Sim, “Maggie´s Farm”. A foto no alto mostra Dylan e Seeger em Newport, em 1963, dois anos antes da polêmica.

7 Replies to “Bob Dylan, Pete Seeger e o machado”

  1. Se realmente o som saiu como historiado, até eu se estivesse lá e achasse um machado cortaria o tal cabo. De qualquer sorte, acredito na versão de P. Seeger, ou seja o cabo continuou inteiro e o som zoou. Vida longa a Dylan, Seeger e aos cabos.

  2. Nesta apresentaçao de Dylan que ficou marcada com a musica The Time they are changing, quando o pessoal nao estava preparado para aceitar a mudança. E com o problema do som ficou feia a coisa…………..Os genios tambem são contestados.

  3. Havia várias guitarras no meio do caminho desta apresentação de Dylan, o que de certa forma afrontou a tradição do folk, mas gênios são sempre assim inventando na polemica, cada um a seu modo , um defendendo a tradição acústica da música folk, outro introduzindo novos conceitos sem fugir dela, uma maravilha.
    Vida longa aos dois.

  4. Não dá para acreditar que o “santo” Pete Seeger tenha feito uma barbaridade dessas. Ah: obrigado por me citar de novo. É a segunda vez.

  5. Estão aí dois sujeitos que realmente viveram intensamente, lutaram, sofreram, viram, ouviram, cantaram e que, agora, estão prontos para a morte, o prêmio da vida.

  6. São duas figuras que fazem parte da história poltíca americana e merecem sempre ser lembrado. Parabéns ao autor.

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