Um dos mais importantes romancistas americanos contemporâneos, Philip Roth expõe, no recém-lançado “Entre Nós” (Companhia das Letras, 176 págs., R$ 36), a sua curiosidade pela vida e pelo trabalho de colegas seus de ofício. O livro, publicado originalmente em 2001, com o título de “Shop Talk” (algo como “conversa de trabalho”), traz uma dezena de textos de Roth sobre as obras de nove escritores e um artista plástico.
Roth “conversa” (palavra sua) com Milan Kundera, Isaac Bashevis Singer, Edna O´Brien, e escreve também sobre Mary McCarthy, Saul Below e Bernard Malamud. O capítulo de abertura do livro, o seu encontro com Primo Levi, em Turim, é o meu favorito. Para além do fato de serem dois escritores que admiro, o texto de Roth é exemplar pelo que ele ensina sobre a arte de escrever um “retrato”, um perfil, de uma personalidade.
Primo Levi (1919-1987) era formado em química e exerceu essa profissão até se aposentar. Ao mesmo tempo, depois de sobreviver a uma temporada de um ano no campo de concentração de Auschwitz, desenvolveu uma carreira literária singular. Escreveu inicialmente um livro de memórias sobre a sua experiência, “É Isto um Homem?”, que é uma das obras-primas do século XX. Também publicou o não menos impactante “A Trégua”, adaptado para o cinema por Francesco Rossi, com John Turturro no papel do autor, no qual relata a longa viagem de volta, de Auschwitz para Turim, passando pela União Soviética.
Escreveu, ainda, novelas, poemas, contos e ensaios. Morreu em 11 de abril de 1987, ao cair do terceiro andar do prédio onde morou toda a sua vida – tudo indica que se suicidou, embora alguns biógrafos atribuam a queda a um acidente, em conseqüência de remédios que o escritor tomava.
Roth encontrou-se com Levi em setembro de 1986. Como ele conta, a conversa seria a continuação de um encontro ocorrido no ano anterior, em Londres. A primeira coisa que o escritor americano manifesta interesse em fazer é uma visita à fábrica onde o colega italiano trabalhou até se aposentar. Ao descrever a visita, em companhia de Levi, Roth cita um personagem de uma novela do escritor italiano:
Por mais distante que ela esteja do espírito de sua prosa, fica claro que a fábrica está muito próxima de seu coração; assimilando o que pude assimilar do barulho, do fedor, do mosaico de canos, tonéis, tanques e mostradores, pensei em Faussone, o aparelhador de A chave-estrela, e disse a Levi, que se refere a Faussone como “meu alter ego”: “Devo lhe dizer que me dá prazer ficar num lugar onde se trabalha”.
Em outro trecho da conversa, Roth mostra toda a sua argúcia ao descrever Levi – qualidade também necessária ao trabalho do jornalista:
Ao contrário do que pode parecer de saída, não causa surpresa a constatação de que os escritores, tal como o resto da humanidade, se dividem em duas categorias: os que sabem ouvir e os que não sabem. Levi sabe ouvir, com o rosto inteiro, um rosto modelado com precisão que, terminando na barbicha branca, aos 67 anos parece juvenil, lembrando o deus Pã, e ao mesmo tempo tem um ar de professor, a expressão de curiosidade irreprimível do estimado dottore.
Por fim, gostaria de chamar a atenção para uma passagem que expõe o preparo prévio de Roth para o seu encontro com Levi. O escritor americano observa:
Há um número impressionante de escritores que praticaram a medicina enquanto escreviam livros, e de escritores que foram membros do clero. T. S. Eliot era editor, e todo mundo sabe que Wallace Stevens e Franz Kafka trabalhavam em grandes empresas de seguros. Que eu saiba, apenas dois escritores importantes foram diretores de fábricas de tintas: você em Turim, na Itália, e Sherwood Anderson em Elyria, no Ohio. Anderson teve que largar a fábrica (e a família) para se tornar escritor; você, ao que parece, tornou-se o escritor que é ficando na fábrica e levando adiante a sua carreira lá.
E indaga:
Eu me pergunto se você se considera na verdade mais afortunado – até mesmo mais bem equipado como escritor – do que aqueles que nunca trabalharam numa fábrica de tintas e que, portanto, nunca tiveram as experiências que esse tipo de trabalho proporciona.
A resposta de Levi fala muito a respeito da sua personalidade:
Como já disse, entrei para a indústria de tintas por acaso, nunca tive muito a ver com a fabricação de tintas, vernizes e lacas. Nossa companhia, assim que abriu, se especializou na produção de esmaltes para fios, isolantes para condutores elétricos de cobre. No auge da minha carreira, eu era um dos trinta ou quarenta especialistas nisso em todo o mundo. Esses bichos pendurados aqui na parede são feitos de fio esmaltado.
Para ser sincero, eu não sabia nada a respeito de Sherwood Anderson até você mencioná-lo. Não, jamais me teria ocorrido a idéia de largar a família e a fábrica para me dedicar exclusivamente à literatura, como ele fez. Eu teria medo de dar esse salto no escuro, e teria perdido minha aposentadoria.
Mas tenho de acrescentar um terceiro nome à sua lista de escritores fabricantes de tinta: Italo Svevo, um judeu convertido de Trieste, autor de A consciência de Zeno, que viveu de 1861 a 1928. Svevo foi por muito tempo diretor comercial de uma companhia de tintas de Trieste, a Società Venziani, que pertenceu a seu sogro e que deixou de existir alguns anos atrás.
A íntegra do texto de Roth sobre Levi, em tradução de Paulo Henriques Britto, pode ser lida no site da editora Companhia das Letras, dentro da página (em “lançamentos”) com a descrição do livro “Entre Nós”.

Otima materia
Vou deixar um comentario.
Pelo menos conta como um comentario depois dessa materia ja estar UM DIA na capa no IG
enfim, feliz Natal, Stycer, Primo Levi e Philip Roth,
e a judeuzada toda como Madoff, cao come cao.
Concordo, BOA MATÈRIA!
Olá Mauricio,
Adorei o conteúdo do teu blog. O achei pq estava procurando algo sobre a produção da minissérie Maysa. Enfim, também sou jornalista e me diverti com o seu post, pq comigo essa barbárie também já aconteceu. Só que um agravante, não tínhamos fotos de arquivo e, resumindo, a matéria entrou com uma ilustração, é mole? risos
Tecnologias….
Abraços
Thais Martinez
Teu blog já está bookmarcado. Ando avidamente procurando coisas sobre Primo Levi, explico, o escolhi para minha monografia; e, olha que acabo de ser aprovada na UFPR, no curso de Italiano. Comprei La tregua no original num sebo virtual. Não faz muito que visito blogs da Intelligentsia Brasilis, espécie a qual você faz parte… Bem, escreva que lerei!!! Preciso de subsídios para minha senda intelectual!!! Tanti Auguri!! Ciao!!
P.S.:Conosce Carlo Grinzburg??