Para comemorar meio século de vida do seu suplemento diário de cultura e entretenimento – o mais antigo da imprensa brasileira – a “Folha de S.Paulo” está lançando o livro “Pós-tudo – 50 anos de cultura na Ilustrada” (Publifolha, 368 págs., R$ 59,90). Escrito por Marcos Augusto Gonçalves, editor do caderno em dois momentos, na década de 80 e novamente nos dias de hoje, o livro reconstitui a trajetória da “Ilustrada” por meio de entrevistas com mais de 20 jornalistas, a reprodução de artigos e reportagens que ajudam a visualizar as diferentes fases (e faces) do suplemento, além de dados sobre o que aconteceu de importante no mundo cultural, apresentados em pílulas, ano a ano, entre 1958 e 2008.
O resultado é uma simpática – e fartamente ilustrada – celebração em torno de um dos mais importantes cadernos culturais da imprensa nacional, cujo alcance e influência, especialmente na década de 80, ajudaram a “Folha” a se consolidar como o maior jornal do país. “Pós-tudo” vai agradar a jornalistas e estudantes – especialmente aos que se especializaram em jornalismo cultural ou que sonham um dia trabalhar nesta área.
Ainda que o foco seja o percurso da cinqüentenária “Ilustrada”, Marcos Augusto Gonçalves enfrenta, no último capítulo, o desafio de olhar para frente. A pergunta não é feita no texto, mas podemos imaginá-la: Como serão os próximos 50 anos?
No texto, intitulado “O papel do jornal”, o autor resume alguns diagnósticos sobre o estado do jornalismo cultural impresso no início deste século XXI. Matinas Suzuki Jr lembra da dificuldade de falar de uma cultura padronizada para um universo de leitores com gosto cada vez mais difuso. Marcelo Coelho se pergunta qual é hoje o lugar do jornal, que não seja o da “cobertura exaustiva da cultura”. Mario Sergio Conti chama a atenção para a acomodação do jornalismo cultural praticado no Brasil a um modelo engessado, “de matéria de capa, colunona na última página, coluna social e um certo gosto pela polêmica”.
Cássio Starling Carlos fala do “choque de realidade” que sentiu ao constatar que os cadernos de cultura dos jornais se tornaram ponta-de-lança das estratégias de marketing da indústria cultural. “O efeito para o jornalista é que foi reduzida a quase zero a ambição de cavar pautas diferenciadas, pois elas caem no colo (entrevistas e viagens), mas são previsíveis e parecem muitas vezes irrelevantes para o público”, diz ele. “Sob a lógica implacável de consumo e descarte, são poucas e rarefeitas as tentativas de oferecer ao leitor abordagens estruturais e conjunturais, esforços de fôlego para revelar movimentos mais subterrâneos”, prossegue o jornalista. “Ao lado disso, os colunistas parecem, às vezes, oásis de perspicácia, às vezes resíduos de arcaísmo. E tal situação só se agrava com o inevitável atraso cronológico na oferta de informação do papel em relação às mídias eletrônicas”.
Sem esclarecer se concorda ou discorda de Starling Carlos, Marcos Augusto Gonçalves reconhece que essas observações “refletem o desconforto, as inquietudes e os desafios” a serem enfrentados nos dias de hoje. O livro sobre os 50 anos da “Ilustrada” termina por oferecer, enfim, uma boa oportunidade para discutir se, “pós-tudo”, o jornalismo cultural tem futuro.
