Salve! Dois filmes brasileiros muito acima da média

Salve! Dois filmes brasileiros muito acima da média

Mostra SeloA indústria cinematográfica nacional comemora 2009 como o ano em que o mercado dará um salto próximo a 20%. Devemos este crescimento às comédias (comédias?) “Se Eu Fosse Você 2”, “O Divã”, “A Mulher Invisível” e “Os Normais”, que arrebentaram nas bilheterias.

Não foi um ano, porém, de emoções fortes para quem aprecia cinema de qualidade. Cada vez mais formatado de acordo com as exigências do mercado, o cinema brasileiro tem surpreendido pouco o público mais exigente.

Integrante do júri da 33ª Mostra de Cinema de São Paulo, o crítico francês Jean-Michel Frodon expressou esta decepção com uma frase de impacto: “É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria”.

A declaração de Frodon, em entrevista à “Folha”, causou um certo mal-estar, por dois motivos: 1) partiu de um estrangeiro, e não de um brasileiro; 2) e é possível que ele não conheça tão bem a produção nacional para fazer um julgamento deste quilate. Na minha opinião, o ex-diretor da revista “Cahiers du Cinema” pode ter cometido injustiças, mas acertou o tiro no alvo.

É evidente que há exceções, e a própria Mostra de São Paulo está aí para ajudar Frodon a matizar as suas críticas. Dois filmes, em particular, merecem ser vistos com atenção por quem espera mais do que comédias com jeitão de novela das 7 no cinema.

os famosos e os duendes“Os Famosos e os Duendes da Morte” é o primeiro longa-metragem de Esmir Filho. O cineasta tem 27 anos e ficou muito famoso ao dirigir “Tapa na Pantera”, um pequeno filme com a atriz Maria Alice Vergueiro no papel de garota-propaganda das qualidades da canabis.

Ganhador do principal prêmio no Festival do Rio, há menos de um mês, “Os Famosos e os Duendes da Morte” se passa numa cidadezinha de colonização alemã, no interior do Rio Grande do Sul, e descreve o sofrido rito de passagem de um adolescente inquieto e angustiado. Neste “cu do mundo”, como diz um dos protagonistas, não há nada para fazer, mas o menino encontra, pelo MSN e pela Web, canais de comunicação e expressão.

Fotografia, roteiro, direção de atores, tudo contribui para que o espectador embarque na viagem do protagonista de “Os Famosos e os Duendes da Morte”, no ritmo dele. Com sensibilidade, Esmir Filho realizou um filme intimista, poético, misterioso, na contracorrente dos filmes sobre adolescentes, que os tratam ou como espertinhos demais ou retardados.

Com distribuição já assegurada, o filme deve chegar ao mercado em 2010. Nesta terça-feira, há uma última sessão programada na Mostra, às 19h40, no Espaço Unibanco Pompéia. Mais informações no site da Mostra.

viajo porque precisoO outro ótimo filme brasileiro exibido na Mostra é “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”. Neste caso, a surpresa é menor porque os seus diretores, Marcelo Gomes e Karin Ainouz, já vem mostrando, há alguns anos, trabalho de qualidade e inventividade. Gomes é diretor de “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005) e Ainouz já fez “Madame Satã” (2002) e “O Céu de Suely” (2006).

Neste novo filme, com título atraente, um geólogo percorre o sertão do Ceará e de Pernambuco fazendo pesquisa para uma futura obra de transposição de águas. No ritmo da paisagem árida que encontra, do olhar das famílias miseráveis que perderão suas casas e do sorriso desdentado das prostitutas que vivem à beira da estrada, o geólogo vai narrando as suas impressões e, aos poucos, as suas dores.

Com trilha sonora que reúne o melhor da música popular brega brasileira, fotografia magnífica e uma estrutura narrativa surpreendente, “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” confirma, mais uma vez, que a nova geração de cineastas do Nordeste (da qual faz parte, também, Sergio Machado, diretor de “Cidade Baixa”) encontrou o seu lugar no cinema brasileiro atual – bem longe da mesmice e da obviedade.

6 Replies to “Salve! Dois filmes brasileiros muito acima da média”

  1. Editando…
    Maurício, você assistiu “Carmo”? O filme não parece, mas é brasileiro! O diretor Murilo Pasta, que morou 20 anos fora do país, já dirigiu novelas e documentários em Londres. A produção é brasileira, espanhola e polônesa e retrata uma parte da paisagem e realidade brasileira antes nunca documentadas. A fotografia é estonteante e dentre o brilhante elenco, destaco façanha do diretor de descontruir o Márcio Garcia que faz uma ponta hilária com o Seu Jorge. A última sessão será hoje no Bourbon, mas deve estrear em circuito nacional em breve.

  2. A Mostra também apresentou um curta metragem bem legal: chama-se “A Mais Forte” e teve duas apresentações. Valeria à pena ter visto até porque minha filha debutou como assistente de produção – 17 aninhos – que orgulho!!!
    Grande abraço

  3. O cinema nacional poderia ser bem melhor, não há dúvida, mas não é ruim como muitos que não costumam assistir (filmes brasileiros) dizem. E o pior é que se satisfazem c/ produções bem fracas made in USA. Os documentários sobre o Cazuza, Simonal, HerbertVianna e Chacrinha, além de Janela da Alma, Divã, e Tropa de Elite, entre muitos outros, são muito bons.

  4. Mauricio, como eu te disse, o resultado da Mostra:

    Prêmio do Público -Melhor Longa-Metragem Brasileiro: “Carmo”, de Murilo Pasta.

    Este filme foi indicado em Sundance – Não é fraco!!! Esse crítico francês está desinformado!

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