Talese encena um roteiro pouco empolgante em Paraty

Talese encena um roteiro pouco empolgante em Paraty

Para os muitos jornalistas presentes em Paraty, o encontro com Gay Talese era a principal atraçäo da Flip. Razöes näo faltam para a adoraçäo. Talese está no pequeno time dos jornalistas que levaram a profissäo a um lugar próximo da arte, especialmente no livro “Fama e Anonimato”, que reúne reportagens e perfis escritos na década de 60.

A primeira ediçäo deste livro lançada no Brasil chamava-se “Aos Olhos da Multidáo”. Esgotado na década de 80, circulava de mäo em mäo entre jornalistas. Li um exemplar xerocado, emprestado por Joaquim Ferreira dos Santos, repórter do Caderno B do “Jornal do Brasil”, em 1986.

Aos 77 anos, Talese conserva a elegância e a fleuma que fizeram a sua fama. De terno e chapéu, circula pelas ruas de pedra de Paraty de braços dados com a mulher, com quem é casado há 50 anos. Atendeu todos os jornalistas que o procuraram para entrevistas  e, na coletiva, há dois dias, falou uma hora e meia sem parar.  

Por tudo isso, o encontro de Talese, neste sábado, com o público causou uma certa decepçäo. Recepcionado pelo jornalista Mario Sergio Conti, Talese discorreu sobre os mais variados assuntos, mas com a frieza e a técnica de quem já contou as mesmas histórias algumas dezenas de vezes.

No lugar de dialogar com Conti, parecia mais estar repetindo um roteiro que já encenou antes. As perguntas serviam como deixas para as falas de Talese – näo para um diálogo. O escritor pouco respondeu sobre os questionamentos feitos, o que acabou resultando num encontro cansativo, pouco atraente. O único bom momento ocorreu ao final, quando Talese enfrentou de fato um tema proposto, sobre o fato de expor intimidades suas e de sua mulher, num livro previsto para o ano que vem.

Foi uma oportunidade para o escritor falar, com emoçäo, do seu casamento. “Respeito é a palavra mais importante num relacionamento. Näo é amor, näo é sexo. Sexo pode ser o mais importante quando você tem 17 anos. Quando você tem 77…”

Por tudo que já escreveu, e pelo que representa para os jornalistas, Talese tem todo o direito de näo empolgar numa festa literária. Numa boa. Mas eu não seria honesto com o que de mais precioso Talese sempre pregou (o respeito à verdade) se näo manifestasse a minha frustraçäo.

4 Replies to “Talese encena um roteiro pouco empolgante em Paraty”

  1. Se Gay Talese é decepcionante, imagine o seu texto, perdi dois minutos preciosos da minha vida, lendo isso.

  2. O entrevistador Conti não deve ter tido o mesmo sentimento do Stycer relativo ao desenrolar do depoimento senão de maneira habilidosa tentaria – como os próprios aconselhamentos de Talese sobre algumas das qualidades que um jornalista deve manifestar, de alguma forma mudar o rumo do roteiro supostamente encenado por Gay. Outra coisa Stycer: será que todos os ouvintes já teriam interagido com a literatura do Talese para saber se o tal roteiro a que vc se refere estaria mesmo viciado? Eu mesmo fiquei impressionado com a entrevista do experiente jornalista na revista Veja de algumas semanas atrás. Mudei meus conceitos sobre o que é e como deve ser feito o jornalismos. Stycer…mais humildade e pé no chão!

  3. Uma dúvida: por que, em eventos como esses, se espera que o autor seja mais interessante do que a sua obra? Além da tietagem, o que mais as pessoas podem querer em encontros como esses?

    Prefiro ficar em casa lendo.

  4. Não s emede um autor pela suas poucas palavras soltas…mas sim, pela sua intimidade com a caneta e o papel…

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